UM RISCO SILENCIOSO NAS OBRAS

UM RISCO SILENCIOSO NAS OBRAS

Por Jeferson Leonardo Pereira (*)

Nas operações de movimentação de cargas, a segurança depende da integridade de todo o sistema de içamento. Ainda assim, é frequente encontrar em obras de diferentes portes, manilhas não normatizadas em uso, muitas delas adquiridas facilmente em revendas de materiais para construção civil, como se fossem acessórios comuns.

Esse cenário merece atenção. A manilha utilizada em operações de içamento não é um simples elemento de fixação. Ela é um acessório de elevação, submetido a esforços dinâmicos e, muitas vezes imprevisíveis, Colocando o fator de segurança aplicado há prova. Quando não atende a requisitos técnicos mínimos, deixa de ser um elo de segurança e passa a representar um risco significativo à integridade das pessoas, dos equipamentos e da própria operação.

No mercado, é possível encontrar manilhas sem qualquer indicação de carga máxima de trabalho, sem diâmetro de construção, sem identificação do fabricante e sem grau de resistência. Essas manilhas, apesar de visualmente semelhantes às normatizadas e até mesmo mais bonita e brilhante, não possuem rastreabilidade técnica e não oferecem garantias quanto ao seu desempenho mecânico.

O problema se agrava quando esses acessórios são utilizados em operações críticas, muitas vezes integrando conjuntos de rigging, comprometendo toda atividade por uma aplicação de componentes inadequados. Em movimentação de cargas, o sistema é tão resistente quanto o seu elo mais fraco.

Outro aspecto preocupante é a origem dessas manilhas. Diferentemente das revendas especializadas em equipamentos de içamento, muitas lojas de materiais de construção não têm como foco a segurança operacional, mas sim a venda de itens de uso geral. Nessas prateleiras, manilhas destinadas a amarrações simples, aplicações estáticas ou usos não estruturais acabam sendo comercializadas sem qualquer orientação técnica, e posteriormente aplicadas em içamentos, de forma totalmente indevida.

É importante destacar que não há ausência de norma, e sim um não atendimento a norma existe. A normatização estabelece critérios de projeto, fatores de segurança, cargas de prova, ensaios mecânicos e marcações obrigatórias. Quando esses requisitos são desconsiderados, não há como garantir o comportamento da manilha sob carga, especialmente em situações de esforço angular e cargas dinâmicos.

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Em campo, também é comum observar a falsa sensação de segurança baseada apenas no “histórico de uso”. O fato de uma manilha não normatizada ter sido utilizada anteriormente sem falha não significa que ela seja segura. Falhas em acessórios de içamento raramente dão aviso prévio — quando ocorrem, costumam ser abruptas e com consequências graves.

A responsabilidade pela escolha do acessório adequado não pode ser transferida ao comprador e a revenda e nem diluída na rotina da obra. Cabe aos profissionais envolvidos na movimentação de cargas — engenheiros projetistas de movimentação de cargas, supervisores de movimentação de cargas, sinaleiros amarradores e gestores em geral, avaliar tecnicamente cada componente do sistema, garantindo que apenas acessórios apropriados, identificados e compatíveis com a operação sejam utilizados.

Da mesma forma, é fundamental que as empresas adotem critérios claros de aquisição, inspeção e descarte de manilhas. A facilidade de compra não pode se sobrepor à segurança. Manilhas sem identificação, sem procedência técnica são proibidas em operações de içamento.

A presença de manilhas não normatizadas nas obras não é apenas um problema técnico, é um reflexo de falhas na cultura de segurança, na gestão de suprimentos e na capacitação dos profissionais. Combater esse cenário exige conscientização, treinamento e posicionamento técnico firme.

Em movimentação de cargas, não há espaço para improviso disfarçado de economia. O custo de um acessório inadequado é insignificante quando comparado ao custo de um acidente. E, nesse contexto, escolher a manilha correta não é uma opção, é uma obrigação profissional.

jeferson(*) Jeferson Leonardo Pereira é engenheiro mecânico e Rigger. Instrutor de Treinamentos na All Lift Engenharia de Rigging. Contatos:  jeferson@alllift.com.br

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