A indústria da mineração abriu 2026 com expansão do faturamento e perspectivas de um novo ciclo de investimentos. Segundo o Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM), o setor registrou receita bruta de R$ 77,9 bilhões no primeiro trimestre, alta de 6% em relação ao mesmo período de 2025. No período, a mineração também respondeu por US$ 9,29 bilhões do saldo da balança comercial brasileira, equivalente a 66% do superávit do país.
O desempenho foi sustentado principalmente pela valorização internacional do ouro e do cobre, que compensou a queda do minério de ferro. O ferro continua como principal produto da indústria mineral, com R$ 37,5 bilhões, ou 48% do faturamento, apesar da retração de 3%. O ouro avançou 45%, para R$ 13,5 bilhões, enquanto o cobre cresceu 28%, atingindo R$ 10,3 bilhões.
Na distribuição regional, Minas Gerais mantém a liderança, seguido por Pará e Bahia. Ao mesmo tempo, o IBRAM revisou para cima sua projeção de investimentos, estimando US$ 76,9 bilhões entre 2026 e 2030, 12,5% acima da previsão anterior. Desse total, US$ 21,3 bilhões estão associados aos chamados minerais críticos, como lítio, níquel, terras raras e fertilizantes.
A dimensão desses números, porém, mostra que o novo ciclo da mineração brasileira vai muito além dos minerais críticos. O minério de ferro responde por 25,8% da carteira de investimentos projetada pelo IBRAM, enquanto cobre representa 11,2%. Bauxita, ouro, fertilizantes, níquel, terras raras, titânio e outras substâncias completam uma carteira diversificada, acompanhada de investimentos em logística e projetos socioambientais.
Uma referência importante para dimensionar esse movimento é o Book de Empreendimentos Minas e Energia 2026, do Ministério de Minas e Energia (MME). O documento identifica R$ 415 bilhões em projetos minerais no horizonte de 2025 a 2035, dos quais R$ 115 bilhões correspondem a minerais críticos. A publicação integra uma carteira potencial de R$ 4 trilhões em investimentos nos setores de mineração e energia até 2035, com mais de R$ 1,2 trilhão em investimentos em execução até 2032.
Na mineração de ferro, por exemplo, a Vale mantém uma série de projetos de expansão e recuperação de capacidade. O Capanema, em Minas Gerais, reativou uma mina que estava paralisada havia 22 anos, com investimento de cerca de R$ 5,2 bilhões e acréscimo de aproximadamente 15 milhões de toneladas anuais à produção. A operação utiliza processamento a umidade natural, sem geração de rejeitos, e incorporou caminhões fora de estrada autônomos.

No Pará, o Projeto Serra Sul +20 Mtpa, associado ao complexo S11D, prevê ampliar em 20 milhões de toneladas anuais a capacidade da operação. Com investimento estimado em US$ 2,8 bilhões, o projeto envolve novas áreas de lavra, britador semimóvel, duplicação de correia transportadora e novas linhas de processamento, com comissionamento previsto para 2026.
Outro empreendimento de grande porte é a retomada da Samarco. A empresa prevê investimentos de R$ 13,8 bilhões na modernização e expansão de suas operações em Minas Gerais e no Espírito Santo, com perspectiva de alcançar novamente 100% da capacidade instalada a partir de 2028. O programa envolve modernização industrial e novas tecnologias de filtragem e disposição de rejeitos, além da recuperação da capacidade produtiva.
Na bauxita, o Pará concentra um dos principais projetos de continuidade operacional do setor. A Mineração Rio do Norte (MRN) obteve licença de instalação para o Projeto Novas Minas, que contempla cinco novas áreas de lavra e prevê investimentos de R$ 9 bilhões entre 2027 e 2041. O empreendimento permitirá estender as operações no oeste paraense até 2041, com produção anual projetada de 12,5 milhões de toneladas de bauxita.
No segmento de fertilizantes, o projeto Potássio Autazes, no Amazonas, representa outra frente de grande porte, com previsão de R$ 12,4 bilhões em investimentos, produção estimada em 2,4 milhões de toneladas anuais e início de operação previsto para 2028. Embora o potássio esteja relacionado à segurança de suprimento de insumos agrícolas, trata-se também de um projeto de mineração de grande escala, com forte demanda potencial por equipamentos, infraestrutura, transporte e serviços especializados.

O ouro também aparece entre os segmentos com perspectivas de expansão. No Rio Grande do Norte, o Projeto Borborema, da Aura Minerals, avança com a exploração de um depósito que deverá ser desenvolvido em Currais Novos. A necessidade de alteração do traçado da BR-226 para permitir a exploração de parte do corpo mineralizado mostra como novos projetos podem demandar investimentos complementares em infraestrutura. A produção prevista para o projeto chega a cerca de 1,5 milhão de onças ao longo de aproximadamente duas décadas.
No Rio Grande do Sul, o Projeto Colinas, voltado ao titânio, representa outra frente de diversificação, com investimentos estimados em R$ 1,3 bilhão e previsão de início da operação em 2027. Em Mato Grosso, o Cabaçal, da Meridian Mining, avança para a etapa de implantação de sua operação de cobre, ouro e prata. Em maio de 2026, a companhia protocolou o pedido de Licença de Instalação e iniciou a aquisição de equipamentos de longo prazo, incluindo o moinho SAG e o transformador principal da planta. Também estão em preparação obras de estradas, pontes e infraestrutura elétrica para permitir o transporte de equipamentos pesados até a área da futura mina.

No Amapá, a retomada da antiga Mina Tucano pela Amapá Minerals acrescenta uma nova frente à produção de ouro, enquanto, na Bahia, a Companhia Baiana de Pesquisa Mineral (CBPM) avança em iniciativas voltadas à produção de barita, insumo utilizado pela indústria de petróleo e gás. Também na Bahia, a Atlantic Nickel iniciou a transição para a mineração subterrânea da mina Santa Rita, ampliando a perspectiva de continuidade operacional.
Em Minas Gerais, a Graphcoa planeja investir aproximadamente R$ 700 milhões em uma planta de grafite em Jordânia, no Vale do Jequitinhonha. A unidade terá capacidade superior a 50 mil toneladas anuais e previsão de entrada em operação no segundo semestre de 2029.
A diversificação alcança ainda os minerais não metálicos e a cadeia de materiais de construção. No Tocantins, a Votorantim Cimentos anunciou R$ 260 milhões para uma nova linha de moagem em Xambioá, que acrescentará 500 mil toneladas anuais à capacidade da fábrica, elevando a produção para 1,5 milhão de toneladas de cimento por ano a partir de julho de 2028. O projeto faz parte de um programa nacional de R$ 5 bilhões em investimentos entre 2024 e 2028.
A própria infraestrutura associada à mineração constitui um mercado de grande dimensão. Em 2026, o BNDES aprovou R$ 3,2 bilhões para a LHG Logística construir 400 barcaças e oito empurradores destinados ao transporte hidroviário de minério de ferro e manganês nos rios Paraná e Paraguai. O exemplo evidencia que o ciclo de investimentos não se limita à abertura ou expansão de minas: envolve também ferrovias, portos, terminais, sistemas de transporte, beneficiamento, armazenagem e equipamentos.

Mais do que um boom concentrado nos minerais críticos, portanto, o cenário aponta para uma carteira mineral diversificada, que reúne minério de ferro, bauxita, ouro, potássio, titânio, manganês, grafite, cobre, níquel, fertilizantes e minerais utilizados na construção civil. Para fornecedores de máquinas, equipamentos, transporte pesado, movimentação de cargas, engenharia e serviços especializados, essa diversidade amplia o número de oportunidades e reduz a dependência de um único segmento da indústria mineral.
O desafio, agora, é transformar o volume projetado de investimentos em obras efetivamente contratadas e executadas. Licenciamento ambiental, infraestrutura logística, disponibilidade de energia, financiamento e segurança regulatória continuarão sendo determinantes para definir a velocidade de implantação dos projetos.
UM NOVO MOMENTO COM OS MINERAIS CRÍTICOS
A corrida global por minerais críticos e estratégicos está abrindo uma nova frente de investimentos no Brasil. Lítio, terras raras, níquel, cobre, nióbio, grafita, manganês e outros minerais passaram a ocupar posição central nas estratégias de segurança de abastecimento, transição energética e desenvolvimento tecnológico. No país, empresas avançam simultaneamente em exploração, estudos de viabilidade, engenharia, licenciamento e implantação, criando uma carteira de projetos com diferentes níveis de maturidade.
Para a cadeia de fornecedores da mineração, o movimento tem uma característica particularmente relevante: à medida que os projetos avançam para a engenharia detalhada e a implantação, a demanda deixa de estar concentrada apenas nos equipamentos de lavra e passa a envolver plantas de beneficiamento e processamento, subestações, transformadores, moinhos, britadores, estruturas metálicas, módulos, sistemas de automação e equipamentos de grande porte. Com isso, crescem também as necessidades de transporte especial, movimentação de cargas, içamento e montagem industrial.
O Ministério de Minas e Energia (MME) colocou os minerais críticos e estratégicos entre as prioridades do planejamento mineral brasileiro. O PlanGeo 2026–2035, elaborado pelo MME e pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB), selecionou 145 áreas prioritárias para aprofundamento do conhecimento geológico. Entre os minerais contemplados estão terras raras, lítio, cobre, níquel, manganês, grafita, estanho, ouro, fosfato e potássio. O objetivo é reduzir incertezas geológicas, ampliar o conhecimento sobre os recursos e criar condições para atrair investimentos.

Mais importante, porém, é que parte dos projetos já começa a atravessar a fronteira entre a engenharia e a execução. No Projeto Bandeira, da Lithium Ionic, em Minas Gerais, a engenharia havia alcançado aproximadamente 65% de conclusão em junho de 2026, quando a empresa anunciou a primeira encomenda de equipamento de longo prazo: o transformador da subestação principal. A aquisição marcou o início da estratégia de long-lead procurement e representa um passo concreto na transição do projeto para a construção.
A companhia mantém a expectativa de obter em 2026 a licença necessária para iniciar a implantação do empreendimento e trabalha com produção entre o final de 2027 e o início de 2028. O caso é representativo de uma nova etapa para os fornecedores: equipamentos de longo prazo começam a ser contratados antes mesmo do início efetivo das obras, antecipando uma cadeia logística que terá de levar componentes de grande porte até o Vale do Jequitinhonha.
LÍTIO
O lítio continua sendo uma das principais frentes dessa transformação. Além do Bandeira, projetos como Colinas, da PLS Mineração do Brasil, ampliam o potencial de produção de concentrado de espodumênio no Vale do Jequitinhonha. O empreendimento ainda está em estágio de desenvolvimento, mas estudos anteriores apontam para uma produção potencial de cerca de 500 mil toneladas anuais de concentrado, em duas etapas.

Outro movimento relevante é a agregação de valor ao mineral. A AMG Brasil, que já produz concentrado de lítio e tântalo em Nazareno (MG), planeja uma unidade para processar cerca de 130 mil toneladas anuais de concentrado de lítio e produzir aproximadamente 17 mil toneladas de hidróxido de lítio grau técnico. O investimento estimado é de cerca de US$ 290 milhões, com possibilidade de conclusão até 2029.
A transformação do concentrado em um produto químico de maior valor agregado altera significativamente o perfil da obra. Uma unidade desse tipo exige equipamentos de processo, tanques, vasos, sistemas de bombeamento, estruturas metálicas, sistemas elétricos e de automação, além de componentes que podem demandar operações especiais de transporte, içamento e montagem.
NÍQUEL
No níquel, o Projeto Piauí Níquel, da Brazilian Nickel, representa outro exemplo de aproximação entre mineração e transformação mineral. Em julho, o BNDES aprovou financiamento de R$ 100 milhões para a Piauí Níquel Metais adquirir máquinas, equipamentos e serviços industriais destinados à produção de precipitados de níquel e cobalto de alta pureza, em Capitão Gervásio Oliveira (PI). O projeto prevê capacidade de até 27 mil toneladas anuais de níquel e 900 toneladas de cobalto, com produção associada às cadeias de veículos elétricos, energia renovável e indústria aeroespacial.
O financiamento é particularmente significativo porque os recursos fazem parte da linha BNDES Máquinas e Serviços e foram direcionados a um projeto selecionado na chamada pública do BNDES e da Finep para transformação de minerais estratégicos. Ou seja, além da mineração propriamente dita, começa a surgir uma política de estímulo à instalação, no país, de etapas industriais associadas aos minerais críticos.

COBRE
Em Cabaçal, no Mato Grosso, a movimentação já é ainda mais concreta. A Meridian Mining apresentou em maio o pedido de Licença de Instalação para o projeto de cobre, ouro e prata e acelerou os preparativos para a construção. A empresa iniciou a aquisição de equipamentos de longo prazo, incluindo o transformador principal da subestação e o moinho SAG.
O moinho terá 28 pés de diâmetro por 18 pés de comprimento. Depois de contratado, a previsão é de até 12 meses para entrega em condição FCA, acrescidos de aproximadamente quatro meses para a logística marítima e terrestre até o local do empreendimento. Paralelamente, a Meridian concluiu estudos das condições das estradas e pontes de acesso e prepara intervenções para elevar a capacidade de carga dessas estruturas, justamente para permitir a chegada dos equipamentos pesados à futura mina.
TERRAS RARAS
É, contudo, no segmento de terras raras que a mudança de patamar talvez seja mais evidente. A Serra Verde, responsável pelo projeto Pela Ema, em Minaçu (GO), iniciou a produção comercial em 2024 e ganhou em 2026 uma dimensão estratégica internacional com o acordo para ser adquirida pela norte-americana USA Rare Earth por aproximadamente US$ 2,8 bilhões. A transação, anunciada em abril, prevê a aquisição de 100% da Serra Verde e deve integrar o ativo brasileiro a uma cadeia que envolve mineração, processamento, separação, metalização e fabricação de ímãs.
A importância do ativo está também na composição de sua produção. Pela Ema é apontada como a única operação em escala fora da Ásia capaz de produzir os quatro elementos de terras raras magnéticas — neodímio, praseodímio, disprósio e térbio. A capacidade plena está projetada em cerca de 6.400 toneladas anuais em 2027.

Outros projetos também avançam em estágios anteriores. Em Poços de Caldas (MG), a australiana Power Minerals assumiu o controle do Projeto Morro do Ferro e iniciou uma nova etapa de avaliação do depósito de terras raras. O movimento foi acompanhado pelo governo de Minas Gerais como parte dos esforços para desenvolver uma cadeia associada aos minerais estratégicos no estado.
Em Araxá, também em Minas Gerais, a St George Mining ampliou em março de 2026 os recursos minerais estimados de seu projeto, que combina terras raras e nióbio. O depósito está localizado próximo às operações de nióbio da CBMM e possui mineralização de ambos os elementos, mas ainda se encontra em fase de desenvolvimento e avaliação, portanto distante da etapa de implantação.
UMA SEGUNDA CARTEIRA DE OBRAS
Enquanto novos projetos ampliam a carteira de investimentos da mineração brasileira, o fechamento de minas e a descaracterização de barragens criam uma segunda frente de obras, com uma característica especialmente atraente para empresas de engenharia e serviços especializados: boa parte dos empreendimentos já possui cronogramas e obrigações definidos, formando um mercado potencial que se estende pela próxima década.
A Vale concentra uma das maiores carteiras. Das 30 estruturas construídas pelo método a montante que a empresa se comprometeu a descaracterizar até 2035, 19 já haviam sido concluídas ao final de 2025, restando 11 em diferentes estágios. Entre elas estão estruturas de grande porte como Xingu e Forquilha III, com conclusão prevista para 2035, Doutor e Sul Superior, para 2029, e Vargem Grande, para 2027.
O movimento, porém, é muito mais amplo. Dados da Agência Nacional de Mineração (ANM) também registram cronogramas de descaracterização de estruturas de outras empresas, como Serra Azul, da ArcelorMittal, prevista para 2032; B4, da CSN Mineração, para 2028; B2 Mina Tico-Tico, da Morro do Ipê, para 2027; Barragem 01, de Jacobina, para 2029; e Germano, da Samarco, também com horizonte de 2029.
O resultado é uma carteira de obras que combina engenharia civil e geotécnica, movimentação de grandes volumes de material, estabilização de taludes, sistemas de drenagem, recuperação ambiental, revegetação e monitoramento de água e solo. Diferentemente de um novo projeto mineral, em que decisões de investimento, licenciamento e financiamento ainda podem alterar o cronograma, parte significativa dessas intervenções decorre de compromissos regulatórios e ambientais já estabelecidos.

