PADRONIZAÇÃO E DESENVOLVIMENTO TÉCNICO

PADRONIZAÇÃO E DESENVOLVIMENTO TÉCNICO

A Associação Brasileira da Indústria de Cabos, Correntes e Acessórios (ABICCA), vem consolidando uma atuação que vai além da representação empresarial, com foco no desenvolvimento técnico, na padronização e na evolução da qualidade e segurança dos produtos utilizados em operações de movimentação de cargas. Segundo Ricardo Teles Araújo, secretário-executivo da entidade, a associação foi criada em 2020 para integrar fabricantes, fornecedores de matérias-primas, universidades, centros de pesquisa e laboratórios, fortalecendo toda a cadeia produtiva de cabos de aço, cabos de fibras, correntes, lingas de amarração e acessórios.

Com uma trajetória profissional ligada à engenharia e a projetos de alta complexidade, Ricardo Teles Araújo reúne experiência acumulada em diferentes áreas estratégicas da indústria. Engenheiro mecânico, iniciou sua carreira na Marinha, onde atuou na área de fabricação de armamentos e munições, e posteriormente ingressou na Petrobras, onde permaneceu por mais de três décadas, entre 1979 e 2015. Na estatal, participou de projetos relacionados à inspeção de equipamentos, ancoragem de plataformas offshore e desenvolvimento de requisitos técnicos para cabos sintéticos de alta performance. Atualmente, atua como consultor na Petro Expertise, empresa especializada em engenharia, inspeção e análise de equipamentos, mantendo sua participação no desenvolvimento técnico do setor.

Entre os principais objetivos da ABICCA está a defesa das empresas associadas contra práticas de concorrência desleal. Ricardo destaca que a entidade não é contrária à importação de produtos, mas defende que todos os equipamentos comercializados no país, sejam nacionais ou importados, atendam aos requisitos técnicos e de segurança exigidos pelas normas técnicas.

“Não somos contra a importação. O problema é quando entram produtos que não seguem normas técnicas e acabam competindo em condições diferentes com empresas que investem em conformidade”, explica o secretário-executivo. Para ele, a concorrência deve ocorrer em igualdade de condições, com produtos que ofereçam a confiabilidade necessária para aplicações críticas de movimentação de cargas.

Outro eixo importante da atuação da associação é o fortalecimento da tecnologia industrial básica (TIB), que envolve áreas como normalização técnica, regulamentação, metrologia e avaliação de conformidade. Nesse contexto, a ABICCA assumiu um papel estratégico ao aproximar a indústria dos processos de elaboração e atualização de normas técnicas.

Um dos principais avanços recentes foi a criação do Comitê Brasileiro CB 113 da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), dedicado aos temas relacionados a cabos de aço, cabos de fibras, correntes, amarras e acessórios. De acordo com Ricardo, antes esses trabalhos estavam distribuídos em diferentes comitês, mas a criação do novo comitê permitiu reunir o conhecimento técnico do setor em uma estrutura específica.

A trajetória desse trabalho tem raízes em iniciativas desenvolvidas há décadas, especialmente na indústria offshore. Ricardo lembra que um dos marcos foi o desenvolvimento de requisitos técnicos para cabos de poliéster utilizados na ancoragem de plataformas de petróleo, em um projeto que contou com participação da Petrobras. O trabalho contribuiu para a criação de normas internacionais aplicadas atualmente a cabos sintéticos de alta performance.

Segundo o secretário-executivo, a experiência adquirida com esses projetos ajudou a ampliar a atuação da entidade para outros segmentos, como correntes, cabos de aço, amarras e acessórios de movimentação de carga. A criação do CB 113 representa uma oportunidade para preencher lacunas técnicas e aproximar as normas brasileiras dos padrões internacionais.

Outro foco da ABICCA é estimular e desenvolver a certificação de produtos no mercado brasileiro. Em parceria com a ABNT, a associação busca ampliar o acesso a processos de certificação para produtos que ainda dependem principalmente da garantia do fabricante. Ricardo ressalta que a proposta não é substituir certificações internacionais já consolidadas, mas integrar alternativas confiáveis e complementares, especialmente para equipamentos utilizados em operações de movimentação de cargas.

“A ideia não é criar uma regra própria, mas integrar normas, melhorar os processos e assegurar que os produtos atendam aos requisitos técnicos”, afirma. Para ele, a certificação pode contribuir para aumentar a segurança das operações e estimular uma cultura de prevenção em toda a cadeia.

Ricardo também chama atenção para a evolução dos materiais utilizados no setor. Cabos sintéticos de alta resistência, como os produzidos com HMPE (polietileno de alto módulo), começam a ampliar sua presença em aplicações tradicionalmente dominadas pelo aço, oferecendo vantagens como menor peso e alta capacidade de carga. Essa transformação abre novos desafios para normalização e certificação, áreas em que a ABICCA pretende continuar atuando.

Para o secretário- executivo, o principal objetivo da associação é promover uma cultura baseada em normas técnicas, certificação e integração entre empresas, entidades e órgãos reguladores. “No final, tudo isso está relacionado à segurança. O nosso papel é ajudar a garantir que os produtos utilizados na movimentação de cargas tenham requisitos técnicos atendidos e ofereçam confiabilidade para as operações”, conclui.

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