Por: Jeferson Leonardo Pereira (*)
Na rotina das operações de içamento, é comum que a atenção esteja voltada aos riscos mais visíveis: falhas de equipamentos, condições climáticas adversas ou limitações estruturais. No entanto, a experiência em campo mostra que o maior vetor de risco, frequentemente, não está no que se vê, mas no comportamento humano.
Entre esses fatores, um se destaca pela complexidade e pela capacidade de gerar acidentes graves: a imperícia inconsciente.
Conceitos fundamentais: imperícia e inconsciência
Do ponto de vista técnico, imperícia é a insuficiência de conhecimento, habilidade ou preparo para executar determinada atividade com segurança e precisão. Diferentemente da negligência ou imprudência, ela está diretamente relacionada à incapacidade técnica, seja por formação incompleta, falta de treinamento adequado ou ausência de experiência qualificada.
Já a inconsciência, nesse contexto, não se refere à falta de intenção, mas à ausência de percepção. Trata-se da incapacidade do profissional de reconhecer suas próprias limitações. Ou seja, não se trata apenas de não saber executar corretamente, trata-se de não perceber que não sabe.
Quando esses dois elementos se combinam, cria-se uma condição particularmente crítica: o erro deixa de ser identificado como erro e passa a ser tratado como procedimento válido.
Quando o erro não se reconhece como erro
A imperícia, em sua forma mais simples, é parte natural do processo de formação profissional. Todos iniciam sua trajetória sem domínio completo das variáveis envolvidas. O problema surge quando a ausência de conhecimento não é percebida, quando o profissional não apenas não sabe, mas não reconhece que não sabe.
Essa condição se manifesta de forma recorrente em operações práticas: decisões de içamento tomadas sem análise formal, ausência de cálculo de centro de gravidade e desconsideração dos ângulos de trabalho das lingas. Ainda assim, a operação segue. Não por critério técnico, mas pela confiança construída na repetição, muitas vezes confundida com competência.
O ponto crítico não é apenas o erro. É o erro executado com convicção.
A origem silenciosa: lacunas na formação técnica
Um fator frequentemente negligenciado nesse cenário é a qualidade da formação profissional. A falta de proficiência técnica de alguns instrutores e instituições de ensino contribui, de forma indireta, para a perpetuação da imperícia inconsciente.
Quando o processo de capacitação não está alinhado com as melhores práticas, normas atualizadas e realidade operacional, cria-se um ciclo preocupante: profissionais são formados com lacunas críticas e, ao ingressarem no campo, replicam conceitos incompletos como se fossem referências corretas.
O resultado é a consolidação de uma falsa percepção de competência, tecnicamente estruturada, porém operacionalmente vulnerável.
A barreira comportamental
Do ponto de vista técnico, a solução parece clara: treinamento, reciclagem e padronização. Na prática, entretanto, existe um obstáculo relevante, a resistência do próprio profissional.
Essa resistência, de forma geral, está associada a fatores como Excesso de confiança e Ego profissional, sustentado por um histórico sem acidentes, frequentemente interpretado como evidência de domínio técnico.
A maturidade na movimentação de cargas
A imperícia inconsciente não é um desvio isolado, ela é um fenômeno construído ao longo do tempo, alimentado por lacunas na formação, reforçado no campo e protegido pela falsa sensação de domínio. Por isso, não se corrige com advertência nem com imposição.
No contexto da movimentação de cargas, o verdadeiro diferencial não está em “achar que sabe”, mas em adotar a disciplina de verificar, revisar e validar cada etapa da operação. O profissional maduro não é o que confia na repetição, é o que confronta a própria prática todos os dias.
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Jeferson Leonardo Pereira é engenheiro mecânico e Rigger. Instrutor de Treinamentos na All Lift Engenharia de Rigging. Contatos: jeferson@alllift.com.br


