EÓLICA ENTRE DESAFIOS E NOVOS INVESTIMENTOS

EÓLICA ENTRE DESAFIOS E NOVOS INVESTIMENTOS

A energia eólica brasileira atravessa um momento de transição. Depois de uma década marcada pela expansão acelerada da capacidade instalada, o setor passou a enfrentar novos desafios relacionados à infraestrutura de transmissão, aos cortes de geração e ao desequilíbrio entre oferta e demanda em determinados períodos do dia.

Em 2025, a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) revogou 509 outorgas de empreendimentos solares e eólicos, correspondentes a aproximadamente 22 GW de potência. O movimento refletiu a necessidade de ajustar o planejamento do setor diante de mudanças no ambiente de negócios, marcado pelo crescimento da geração distribuída, pela limitação da rede de transmissão e pelo aumento dos cortes de geração determinados pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).

Um dos exemplos mais emblemáticos desse novo cenário foi a decisão da Atlas Renewable Energy de suspender cerca de US$ 1 bilhão em investimentos no Brasil. Embora a empresa tenha construído sua atuação principalmente no segmento fotovoltaico, também buscou ampliar sua presença em outras fontes renováveis com a aquisição, em 2022, do projeto eólico Juramento, em Minas Gerais, com capacidade prevista de 378 MW.

Apesar dos desafios conjunturais, o setor mantém uma perspectiva de crescimento no médio e longo prazo, impulsionado por três grandes vetores: armazenamento de energia, geração eólica offshore, hidrogênio verde e a expansão de cargas estratégicas, como os data centers.

ANEEL autoriza primeira unidade armazenadora vinculada à usina
ANEEL autoriza primeira unidade armazenadora vinculada a usina (Divulgação: ANEEL)

Baterias ganham papel estratégico

A regulamentação dos Sistemas de Armazenamento de Energia (SAEs) pela ANEEL é considerada uma das mudanças mais importantes do setor elétrico brasileiro nos últimos anos. A tecnologia permitirá que parques renováveis armazenem parte da energia produzida em períodos de excesso de oferta e disponibilizem essa energia nos momentos de maior demanda ou maior valor econômico.

Para o mercado, as baterias podem reduzir perdas operacionais, aumentar a flexibilidade do sistema e viabilizar novos modelos de negócios, incluindo projetos híbridos que combinam geração eólica, solar e armazenamento.

A medida também está diretamente relacionada ao avanço dos cortes de geração renovável, conhecidos como curtailment. Com o crescimento acelerado das fontes intermitentes, o desafio do sistema deixou de ser apenas ampliar a geração e passou a envolver a capacidade de administrar os períodos de excesso de energia.

Geração distribuída e os “gatos solares”

Outro fator que passou a influenciar o equilíbrio do sistema é o crescimento da micro e minigeração distribuída (MMGD), principalmente a solar instalada em telhados e pequenos empreendimentos. A expansão da MMGD reduziu a chamada carga líquida observada pelo sistema durante os horários de maior produção solar, especialmente entre o fim da manhã e o início da tarde. Como esses sistemas não são despachados diretamente pelo ONS, os cortes de geração acabam recaindo principalmente sobre grandes usinas centralizadas, incluindo parques eólicos e solares.

Estudos do operador indicam que os cortes por excesso de oferta tendem a ganhar relevância nos próximos anos. Entre as soluções debatidas estão a ampliação da transmissão, a implantação de armazenamento em baterias, a criação de sinais econômicos para estimular o consumo nos horários de excedente e a atração de grandes consumidores de energia.

Novas expectativas em relação ao offshore

A geração eólica offshore surge como uma das grandes apostas para a próxima década. Com o marco legal aprovado e diversos projetos em avaliação ambiental, o potencial brasileiro no mar é considerado um dos maiores do mundo. Empresas como Petrobras e Equinor estudam iniciativas de grande porte, principalmente em regiões com elevado potencial de ventos, como o Nordeste e o Sul do país.

Demanda firme com hidrogênio verde e datacenters

Outro mercado estratégico é o hidrogênio verde. Projetos em desenvolvimento no Ceará e em Pernambuco buscam aproveitar a disponibilidade de energia renovável para atender setores industriais como aço, cimento, fertilizantes e transporte pesado.

Os data centers também começam a aparecer como novos consumidores estratégicos. O avanço da inteligência artificial e da digitalização está criando uma demanda crescente por energia firme e previsível, capaz de estimular novos investimentos em geração renovável.

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Usina Eolica (Divulgacao Casa dos Ventos)

Carteira de projetos se mantém, à espera de definições

Mesmo diante das dificuldades atuais, a base de dados SIGA/ANEEL, com referência de atualização em 1º de maio de 2026, registra 47 usinas eólicas classificadas como “Construção” e outras 405 como “Construção não iniciada”.A classificação “Construção” indica empreendimentos com obras em andamento segundo os registros da agência, mas é importante destacar que essa situação não significa necessariamente que todos os projetos estejam dentro do cronograma originalmente previsto. Empreendimentos nessa etapa também podem ter seus prazos ajustados, sofrer revisões de cronograma ou receber prorrogações de autorização.

Entre os projetos registrados nessa fase estão grandes empreendimentos conduzidos por grupos nacionais e internacionais. A CTG Brasil lidera a carteira com o Complexo Eólico Serra da Palmeira, na Paraíba, formado por 23 parques eólicos e capacidade instalada de 648 MW. O empreendimento avançou para a fase final de implantação, com suas principais estruturas de geração e transmissão instaladas e passou por etapas de energização, comissionamento e testes para entrada em operação comercial.

A EDP Renováveis mantém investimentos nos complexos Serra da Borborema, São Domingos e Itaúna, também na Paraíba, incluindo o parque Borborema II, com 47,2 MW. O conjunto recebeu financiamento do Fundo de Desenvolvimento do Nordeste (FDNE) e integra um pacote de investimentos de aproximadamente R$ 1,4 bilhão.

A Voltalia avança com o Complexo Canudos, na Bahia, com 99 MW, enquanto prepara novos projetos, como Dom Basílio, autorizado pela ANEEL em 2026.Já a Auren Energia desenvolve o parque Cajuína 3, no Rio Grande do Norte, com 112 MW e investimento estimado em R$ 750 milhões. O projeto aproveita infraestrutura existente e apresenta elevado fator de capacidade.

A Elawan Energy também mantém iniciativas de expansão renovável no país, enquanto a AXIA Energia, nova marca da antiga Eletrobras após a privatização, segue com estratégia de diversificação da matriz e investimentos previstos de longo prazo.

Autoprodução aproxima renováveis da indústria

A busca por segurança energética e previsibilidade de custos também viabiliza acordos entre grandes consumidores e geradores renováveis. Um exemplo recente foi o acordo entre a Samarco e a Casa dos Ventos envolvendo participação da mineradora no Complexo Eólico Serra do Tigre, localizado entre o Rio Grande do Norte e a Paraíba. A parceria prevê o fornecimento de 45 MW médios de energia renovável a partir de 2027, reforçando a estratégia de autoprodução e descarbonização da indústria.

Foto em destaque: Complexo eólico Casa dos Ventos – Serra do Tigre (PE) Vestas Divulgação

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