COMPETÊNCIAS NA MOVIMENTAÇÃO DE CARGAS

Por: Camilo Filho (*)

Cada função na equipe de movimentação de carga (planejador, operador, rigger, sinaleiro…), exige um conjunto diferente de habilidades, atitude, treinamento e experiência. Há sobreposição em algumas áreas, mas a cada membro da equipe lhe cabe fazer a sua parte. E com o nível de oportunidades de treinamento e certificação disponíveis hoje, os empresários agora têm uma expectativa maior de que seus colaboradores na área de movimentação de carga, tenham dominado habilidades críticas para serem aplicadas nos constantes desafios que se apresentam no nosso  segmento de atuação.

O que eu considero ser necessário para ser um profissional Top na sua função?

  • SINALEIRO

O sinaleiro precisa entender sinais manuais e de voz e saber como comunicá-los ao operador. Além disso, ele precisa entender bem as operações básicas do guindaste e suas limitações. De certa forma, ele está operando o guindaste porque o operador é obrigado a obedecer aos seus sinais. Outras qualificações necessárias, são habilidades básicas de matemática e boa condição física (acuidade visual e auditiva, vale lembrar também, que o sinaleiro ajuda no patolamento e na amarração da carga, o que demanda certo esforço físico). Geralmente, não é exigida experiência, mas a meu ver para se sair bem no treinamento e teste, provavelmente você precisa ter algum tipo de experiência, e no meu caso vejo que a maioria das pessoas que conseguem se certificar como sinaleiro tem alguma experiência.
Não há requisitos para diferentes classificações de sinaleiro, mas você encontra em alguns certificados “Sinaleiro I, Sinaleiro II e até III????

Do ponto de vista prático, quanto mais o sinaleiro entender sobre a operação do guindaste, melhor direcionamento pode dar a carga suspensa. Na minha opinião, para ser qualificado, ele precisa entender, novamente, como o guindaste é basicamente operado e suas limitações. Eles não precisam ter experiência operacional, mas um bom entendimento das funções e da operação do guindaste.

  • RIGGER

Além da parte física em dia, boas habilidades com matemática e um pouco de conhecimento de Física são muito importantes para o rigger. Por exemplo, há cálculos que precisam ser feitos para garantir que a amarração esteja dentro de todas as suas capacidades, ou a verificação da força que a patola do equipamento está descarregando no solo. Os riggers também precisam saber o que o fabricante de cada acessório recomenda ao usa-los, suas limitações e a compatibilidade dos diferentes acessórios quando usados em conjunto.

Eles precisam entender a configuração de sua carga e seus pontos fortes e fracos. Conceitos como Centro de Gravidade, ângulos da eslinga, D/d, tipo da amarração e acessórios a empregar, impactam enormemente as escolhas de montagem.

Experiência é fundamental para este profissional. O bom rigger, na minha opinião, é aquele que subiu os degraus, sem pular etapas, ou seja: começou como ajudante, foi classificado depois como sinaleiro, operador e finalmente rigger.

Um dos benefícios da experiência é que, quando as coisas não estão perfeitamente alinhadas ou fogem do padrão, há o conhecimento do que pode ser feito com segurança para mitigar barreiras. Nem todos os içamentos são tranquilos, C.G. conhecido, com pontos de pega perfeitos, determinados. Existem muitos incidentes documentados que comprovam que nem todos os içamentos saem como planejado porque o planejamento foi alterado de última hora ou não foi tão detalhado quanto deveria. Se me permitem, nos Estados Unidos, os riggers tem um ditado que é o seguinte: “Man, when the plan changes right before the lifting  begins, shit happens” ou traduzindo “Cara, quando o planejamento muda em cima da hora de iniciar a operação de içamento, as coisas dão errado”.
Nos treinamentos, passo conhecimento e ensino habilidades, mas a experiência não tem jeito, ele traz ou vai precisar ser desenvolvida a longo prazo pelo participante.

  • OPERADOR DE GUINDASTE

Além da prte física, um operador de guindaste deve demonstrar conhecimento profundo do seu equipamento (Manual de Instruções e Manual das tabelas de Carga são sua bíblia), além do conhecimento inerente a sua função. Nestes conhecimentos específicos da sua função, podemos elencar: métodos de amarração, patolamento, a utilização de ganchos, manilhas, esticadores, olhais, cabos de aço, eslingas sintéticas e correntes.

Os operadores também devem demonstrar conhecimento da operação específica do guindaste que opera (por treinamento certificado, experiência ou uma combinação dos dois); montagem e desmontagem do equipamento, incluindo os acessórios especiais, tais como jib, luffing jib, “Y” e outros. Eles devem demonstrar que sabem avaliar todos os riscos potenciais do local de operação, os riscos a que estão submetidos os colaboradores e das condições ambientais. Também juntamente com o rigger, analizar o plano de rigging e planejar o caminho do içamento ou corredor de movimentação de carga.

Os operadores devem demonstrar conhecimento comprovado de como seguir um plano de rigging e ler as capacidades do guindaste a partir das tabelas de carga do fabricante. Determinar o número de pernas e o moitão adequado ao trabalho, e por fim determinar a capacidade líquida do guindaste, também é sua responsabilidade.

Eles devem ser capazes de demonstrar habilidade em movimentação e posicionamento de carga (por treinamento, experiência ou combinação de ambos), incluindo:

  • Colocar o gancho (com ou sem carga) na posição com precisão e segurança, sem balanço;
  • Conectar a amarração ao moitão;
  • Posicionamento do gancho para içamento inicial na vertical, sem deixar a carga correr, levando em consideração a verticalidade e a deflexão da lança;
  • Efetuar o movimento suave da carga, desde o início do içamento, até depositá-la em sua posição final;
  • A habilidade de realizar vários movimentos ao mesmo tempo, para fazer com que a carga possa ser movimentada e posicionada com movimentos suaves e precisos;
  • A habilidade de mover a carga num ritmo constante enquanto ao mesmo tempo mantém o controle e estabilidade;

Bons operadores devem ter concluído satisfatoriamente os treinamentos e a certificação, seja em uma terceira parte ou internamente na empresa, incluindo exames escritos e práticos por tipo de guindaste. Eles devem realizar um exame físico anual e não consumir drogas ilegais. Devem ter a capacidade de se concentrar por períodos longos nas tarefas que estão executando. Habilidades avançadas/especiais tais como “dragline”, bate estacas, “clamshell” ou ainda trabalho embarcado.

Ainda, a equipe de movimentação de carga, deve ser centrada no sentido de calma/paciente e imbuída do espírito de sacrifício, porque muitas vezes temos longas jornadas, trabalho de madrugada e o stress do próprio trabalho, podem desestabilizar a equipe. Digo isso porque já vi acontecer: um pequeno deslize, uma palavra mal interpretada, pode resultar em ânimos exaltados.

(*)camilofilho Camilo Filho é engenheiro mecânico, especialista em içamentos pesados, com 40 anos de experiência em operações com guindastes e movimentação de carga. Com vários cursos na área feitos no exterior, é responsável por vários trabalhos de grande envergadura no Brasil e no exterior. Atualmente é autônomo e consultor da IPS Engenharia de Rigging. Sugestões e comentários enviar para camilofilho@hotmail.com.

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