GESTÃO DE RISCOS HUMANOS EM AMBIENTES INDUSTRIAIS

GESTÃO DE RISCOS HUMANOS EM AMBIENTES INDUSTRIAIS

Por Ezequiel Nunes (*)

Estive recentemente em uma refinaria petrolífera para um serviço de consultoria técnica. O objetivo era observar desvios operacionais, já que estavam ocorrendo muitos incidentes com movimentação de carga. Foram quatro dias de imersão, e minha percepção foi consistente com o que hoje se discute em Segurança do Trabalho. Os desvios identificados provavelmente são apenas a “ponta do iceberg”. Abaixo deles podem existir fatores organizacionais como fadiga, estresse, baixa motivação, comunicação deficiente e liderança inadequada.

A NR-01 reforça essa visão: a prevenção de acidentes deve considerar não apenas os riscos físicos, mas também os fatores psicossociais que influenciam o comportamento humano. Empresas que atuam sobre esses fatores reduzem acidentes, afastamentos, absenteísmo e rotatividade, fortalecendo uma cultura de segurança mais madura e sustentável. Considerando nossa expertise em acidentes relacionados à movimentação de carga, foi possível integrar comportamento seguro, fatores humanos e os requisitos atuais da NR-01, entregando uma análise mais completa do que simplesmente apontar falhas operacionais.

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Em ambientes industriais de alto risco, os acidentes não decorrem apenas de falhas técnicas, mas também de fatores humanos e organizacionais. A imprudência e a imperícia, sempre presentes em incidentes com movimentação de carga, podem ser manifestações de problemas maiores: fadiga, sobrecarga, baixa motivação, pressão por resultados, jornadas extensas e desgaste emocional.

A atualização da NR-01 trouxe essa mudança de visão. Hoje, o empregador deve gerenciar não apenas riscos físicos, químicos, biológicos, ergonômicos e mecânicos, mas também os psicossociais. Esses fatores passaram a integrar o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO), exigindo identificação, avaliação, registro e medidas preventivas. O foco é prevenir o adoecimento mental relacionado à organização do trabalho.

Burnout e acidentes

A Síndrome de Burnout é caracterizada pelo esgotamento físico e emocional decorrente do estresse crônico. Seus sinais incluem cansaço constante, dificuldade de concentração, irritabilidade, perda de motivação, redução da atenção, sensação de incapacidade e aumento de erros. Em refinarias, esses sintomas representam risco elevado: trabalhadores esgotados tendem a ignorar procedimentos, esquecer etapas críticas, assumir riscos desnecessários, reduzir a percepção de perigo, confiar excessivamente na experiência e tomar decisões impulsivas. Assim, acidentes podem parecer fruto de imprudência, quando na realidade a fadiga mental é determinante.

O que a NR-01 espera

A norma exige que a organização identifique causas de risco psicossocial, como jornadas excessivas, sobrecarga de tarefas, pressão por produtividade, liderança inadequada, conflitos, comunicação deficiente, falta de reconhecimento, ausência de autonomia e turnos que prejudicam o descanso. O objetivo não é responsabilizar o trabalhador, mas compreender se a própria organização favorece o desgaste.

Como proceder em avaliações

Durante avaliações, ampliamos a observação além dos procedimentos técnicos, considerando comportamento em treinamentos, tempo de resposta, nível de atenção, participação, interação, sinais de sonolência, alterações de humor e desinteresse. Também é essencial conversar com supervisores e operadores para entender carga de trabalho, horas extras, qualidade do descanso, relação com a liderança e percepção de segurança. Essa abordagem diferencia falta de conhecimento de comprometimento por fatores psicossociais.

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Intenções dos trabalhadores

Na maioria das vezes, não há intenção de descumprir normas. O que ocorre é uma combinação de fatores: excesso de confiança, automatização da tarefa, pressa, pressão por produção, esgotamento físico e mental. O trabalhador deixa de perceber o risco como perceberia estando descansado e engajado.

Ações de melhoria

A melhoria exige ações em diferentes frentes:

  1. Reforçar cultura de segurança sem punições automáticas.
  2. Desenvolver lideranças que dialoguem mais e apenas cobrem menos.
  3. Revisar jornadas, pausas e horas extras.
  4. Estimular relatos de quase acidentes.
  5. Realizar observações comportamentais periódicas.
  6. Monitorar indicadores como absenteísmo, afastamentos, rotatividade e incidentes.
  7. Implementar ações voltadas aos riscos psicossociais dentro do GRO e PGR.
  8. Promover treinamentos contínuos sobre fatores humanos e tomada de decisão.
(*) ezequiel nunesEzequiel Nunes (*) (*) Ezequiel Nunes, engenheiro mecânico, técnico em HSE e mecânica, é especialista em movimentação de carga e instrutor offshore. Contatos: kielnunes@hotmail.com

 

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