A movimentação de cargas no Brasil começa a entrar em uma nova fase com a implantação de um sistema estruturado de certificação de profissionais baseado em normas técnicas e avaliação de competências. O processo, que vem sendo desenvolvido há mais de uma década, ganhou impulso nos últimos anos e começa agora a chegar à operação, com a realização dos primeiros exames e a formação de uma rede de provedores de treinamento e centros habilitados para as avaliações.
A iniciativa teve origem em 2013, quando a SOBRATEMA e a ABENDI passaram a trabalhar conjuntamente na estruturação de um programa de certificação para profissionais de movimentação de cargas. Segundo Carlos Gabos, engenheiro especializado no segmento e participante das comissões técnicas da ABNT, a proposta contemplava inicialmente operadores, riggers e sinaleiros, além de profissionais de linha amarela. Esta última frente não avançou, e o trabalho concentrou-se na movimentação de cargas.
De acordo com Maurício Ballarine, gerente executivo de certificação da ABENDI, naquele momento foi constituído um grupo de especialistas para desenvolver as bases técnicas do processo. A entidade participou da elaboração das normas e estruturou inicialmente um modelo de certificação por crédito estruturado, destinado principalmente a profissionais experientes. Nesse sistema, eram analisados documentos relativos à experiência profissional, escolaridade, treinamentos e trajetória do candidato, com uma pontuação previamente estabelecida para determinar sua elegibilidade à certificação.

A iniciativa, entretanto, demorou a ganhar escala. O cenário começou a mudar quando o SINDIPESA, que trabalhava na estruturação de um selo de qualidade para empresas do setor, incorporou a qualificação dos profissionais entre os requisitos considerados. Segundo Ballarine, a entidade ajudou a demonstrar que a questão precisava ganhar uma dimensão nacional e ser sustentada por normas brasileiras.
A partir daí, a ABENDI, em conjunto com especialistas e empresas do setor, levou a demanda à ABNT. Foram abertas comissões de estudo para a elaboração das normas nacionais, utilizando como ponto de partida o trabalho técnico que já havia sido desenvolvido. O processo contou com a participação de diferentes empresas e, posteriormente, também ganhou o envolvimento da Petrobras.
O primeiro resultado desse trabalho foi a NBR 17089, voltada à certificação de sinaleiro amarrador de cargas, supervisor de movimentação de cargas e rigger projetista. Posteriormente foi desenvolvida a NBR 17224, específica para operadores de guindaste. Segundo Gabos, ambas passaram pelo processo de consulta pública e encontram-se vigentes.
A mudança representa uma diferença importante em relação ao modelo anterior. A experiência profissional continua sendo relevante, mas o processo deixa de depender exclusivamente da comprovação documental da trajetória do trabalhador. A certificação passa a estar associada à demonstração objetiva das competências previstas nas normas, por meio de avaliações teóricas e práticas.

As normas estabelecem aquilo que o profissional precisa saber e ser capaz de executar, enquanto os procedimentos de avaliação são estruturados pelo organismo de certificação. Gabos, que participou da elaboração dos exames utilizados pela ABENDI, explica que a norma estabelece, por exemplo, as competências que devem ser demonstradas por um sinaleiro amarrador, mas cabe ao organismo certificador definir como essas competências serão verificadas na prática, incluindo os exercícios e critérios de avaliação.
Nesse novo modelo, ganha importância o papel do Organismo de Certificação de Pessoas (OPC). A ABENDI, que já possuía experiência na certificação de profissionais em outras áreas, ampliou seu escopo para a movimentação de cargas e passou pelo processo de avaliação do Inmetro. A entidade atua seguindo os requisitos estabelecidos para organismos de certificação de pessoas e conduz o processo de avaliação dos candidatos.
A estrutura também estabelece uma separação entre treinamento e certificação. Os cursos são realizados por provedores de treinamento, enquanto o exame de certificação é conduzido sob responsabilidade do organismo certificador. Quando o local utilizado para o treinamento dispõe da infraestrutura necessária, ele também pode ser reconhecido como centro para realização dos exames.
Essa estrutura começa a ganhar forma na prática. Um dos primeiros exemplos é o Centro de Treinamento da Alllift, em Guarulhos (SP), onde foram realizados exames de certificação de sinaleiros amarradores de cargas em junho de 2026. A avaliação foi realizada nas instalações da empresa, utilizando sua infraestrutura para os exames práticos. Carlos Gabos atuou como examinador escolhido pela ABENDI, reforçando a separação entre a instituição responsável pelo treinamento e o profissional responsável pela avaliação.
Para Ballarine, a existência de uma rede desse tipo é fundamental para permitir a expansão nacional da certificação. A ABENDI não precisa necessariamente manter estruturas próprias em todas as regiões. Provedores de treinamento podem realizar cursos nos próprios clientes, inclusive fora de seus estados de origem, desde que sejam atendidos os requisitos estabelecidos. Para a realização do exame, a ABENDI pode deslocar um examinador habilitado até o local.
O objetivo é fazer com que o sistema avance para além dos grandes centros e alcance profissionais de diferentes regiões do país. A expansão da rede de provedores e centros de exames também reduz a necessidade de deslocamento de trabalhadores para São Paulo ou outros polos onde inicialmente estejam concentradas as estruturas habilitadas.
Outro elemento que contribui para acelerar esse movimento é a demanda dos grandes contratantes. A Petrobras aparece como um importante indutor da adoção de requisitos de treinamento e certificação para profissionais envolvidos em operações de movimentação de cargas. Segundo Ballarine, a partir da adoção desses requisitos o mercado passou a se movimentar com maior intensidade, aumentando o interesse de empresas e profissionais pela certificação.
Para empresas que contratam serviços de movimentação de cargas, a mudança tende a representar um novo parâmetro para a qualificação das equipes. Para os profissionais, a certificação passa a oferecer uma forma objetiva de comprovar competências que anteriormente podiam ser demonstradas principalmente por experiência profissional ou certificados de cursos.
A consolidação desse modelo, entretanto, depende da formação de uma rede suficientemente ampla de treinamento e certificação. A ABENDI já mantém contatos com diferentes provedores, entre eles Instituto Opus, Rigging Brasil e Sertec, e vem realizando ou programando avaliações para o reconhecimento dessas estruturas.
O processo iniciado em 2013, portanto, chega a uma etapa decisiva. Depois de anos de desenvolvimento técnico, elaboração de normas, estruturação de procedimentos e participação de entidades e empresas do setor, a certificação começa a deixar o campo das discussões e entrar efetivamente nas operações.
Mais do que a criação de um novo certificado, o movimento representa uma tentativa de estabelecer uma referência nacional para a comprovação da competência de profissionais envolvidos em atividades críticas de movimentação de cargas. Com a participação de entidades como ABENDI, SOBRATEMA, SINDIPESA e ABNT, além da crescente demanda de grandes contratantes, o sistema começa a criar as bases para que treinamento, avaliação e certificação passem a ocupar papéis distintos e complementares na qualificação profissional do setor.


