A GRANDE MOBILIZAÇÃO DO PROJETO SUCURIÚ

A GRANDE MOBILIZAÇÃO DO PROJETO SUCURIÚ

Os números do Projeto Sucuriú, da empresa chilena Arauco, em Inocência, no Mato Grosso do Sul. são superlativos e incontestáveis. Com investimento de 4,5 bilhões de dólares e capacidade projetada de 3,5 milhões de toneladas anuais de celulose branqueada de eucalipto, Sucuriú desponta como o maior empreendimento mundial em linha única. A escala impressiona: com previsão de início de operação, com 6 mil empregos fixos, no segundo semestre de 2027, a produção equivalerá a 20 bilhões de rolos de papel higiênico anuais, principal destino da celulose curta, e a planta ainda terá impacto energético significativo, gerando 400 megawatts, dos quais 200 serão disponibilizados à rede nacional — energia suficiente para abastecer uma cidade de 800 mil habitantes.

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Divulgação: Valmet-Projeto Sucuriú

Neste momento, final de março de 2026, Sucuriú está numa fase intermediária de seu cronograma, em uma etapa da montagem de equipamentos. Em uma área de 300 hectares (cerca de 365 campos de futebol) e onde serão utilizadas no total 110 mil toneladas de aço, o equivalente a 15 Torres Eiffel, se encontram mobilizados entre 10 e 11 mil trabalhadores – número que deve chegar, ainda em 2026, a 14 mil no pico da construção.  A logística envolvida também não deixa por menos. Considerando-se somente a finlandesa Valmet, que responde por grande parte dos equipamentos desse projeto, 3 mil contêineres e 650 mil cargas soltas estão sendo transportados, a partir de Santos e Paranaguá, para o canteiro de obras.

O investimento total de US$ 4,5 bilhões inclui a área florestal, a planta e a logística do projeto em si (inclusive uma ferrovia com 45 Km). Na planta, especificamente, a Valmet tem algo em torno de 450 fornecedores contratados, dos quais 110 atuantes no site, seja diretamente ou subcontratados de parceiros, como montadores e as empreiteiras que fazem a parte civil. O escopo, além da tecnologia, inclui um contrato abrangente de serviços. A colaboração da Valmet envolve soluções avançadas de automação e serviços de manutenção. A multinacional finlandesa implementa sistemas de automação e controle DNA/IQ, fundamentais para a otimização dos processos industriais, garantindo maior eficiência, estabilidade operacional e qualidade da produção.

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Dentre as parceiras estratégicas nesse projeto, a Valmet destaca o TCP – Terminal de Contêineres de Paranaguá (logística portuária), a Transpés e a DiCanalli (transporte de cargas), a Rio Verde e Fortes (construção civil) e as montadoras Enesa, Imetame, Palmont e Estel. Cabe notar que muitas outras empresas de movimentação de cargas estão envolvidas, contratadas por esses parceiros principais.

Alber Almeida, diretor de Supply Chain, Manufacturing, Quality & HSE da Valmet na região LATAM
Alber Almeida, diretor de Supply Chain, Manufacturing, Quality & HSE da Valmet na região LATAM

Alber Almeida, diretor de Supply Chain, Manufacturing, Quality & HSE da Valmet na região LATAM, lembra que a logística é sempre um grande desafio em empreendimentos de celulose, já que as plantas são construídas em regiões afastadas dos grandes centros, próximas às bases florestais. “O acesso rodoviário não é simples, e a infraestrutura das estradas brasileiras é outro desafio, mas, por termos tudo muito bem mapeado e contarmos com excelentes parceiros, temos conseguido superar”. E, claro, diz ele, o transporte até o site exige coordenação com autoridades locais, respeito à legislação e comunidades locais, além de um planejamento minucioso para cargas de grande porte.

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“O primeiro ponto é que precisamos trazer equipamentos de diversas partes do mundo — Ásia, Europa, Pacífico — e levar em conta os gargalos nos portos, daí a importância das boas parcerias que temos nos portos em Paranaguá e Santos”. No caso da Valmet, essa logística envolve cargas soltas e nada menos dos três mil containers (dos quais mil já foram colocados ao longo da obra). E “colocados” significa sobretudo rastreabilidade para que eles sejam levados para o site, descarregados e posicionados de acordo com o cronograma de montagem

Já no transporte em si, obviamente a primeira dificuldade é a malha rodoviária dentro do Brasil, que se torna ainda mais problemática distante dos grandes centros, onde o percurso envolve vias não pavimentadas. “Se você levar em conta ainda as dimensões e o peso de alguns de nossos equipamentos, como o caso do Balão da Caldeira, precisamos estar muito próximos das autoridades locais e ter parceiros qualificados e experientes para poder conduzir essas cargas de forma adequada, sem impactar a sociedade.

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Divulgação: Valmet-Projeto Sucuriú

Outra contingência é a condição climática. “Teve muita chuva no Mato Grosso do Sul desde o início do projeto e isso impactou muito a logística de chegada o descarregamento das cargas e até a montagem desses equipamentos. É um desafio constante na região e temos que atuar de forma assertiva para garantir a produtividade dos trabalhos de implantação”.

O grande volume de cargas envolvido na operação logística (3 mil contêineres e 650 mil cargas avulsas) é um bom exemplo dessa assertividade no planejamento. “Decidimos comprar os contêineres com direito de revenda o que reduziu custos de demurrage (custo adicional cobrado quando não é devolvido dentro do período estabelecido pelo contrato) e ainda permitiu reutilização sustentável, no próprio canteiro e em projetos sociais na região”.

Quanto aos critérios de contratação de fornecedores, Almeida ressalta a cultura de parcerias sustentáveis da Valmet e seu sistema global de gestão. “Segurança operacional, conformidade com a legislação local, capacidade técnica, ativos mantidos de forma adequada, sustentabilidade e saúde financeira são requisitos fundamentais. Não basta preço: precisamos de fornecedores que compartilhem nossa visão de longo prazo”, disse.

“Desde a época do planejamento a gente vem trabalhando com parceiros, que já que tem uma experiência muito grande há muito tempo. Então ainda durante a precificação, quando começamos a trabalhar no orçamento para esse projeto, chamamos esses parceiros que já estão conosco há muito tempo e estudamos junto com eles os desafios da obra”.

Entre outros, ele cita a DiCanalli, que responde pelo transporte de containers e cargas soltas de menor dimensão, a Transpes, que transporta as de maior dimensão, e o TCP, Terminal de Contêineres de Paranaguá.  “Nós tivemos desde o início uma negociação muito importante com eles, o que nos deu flexibilidade e reduziu o nosso custo”.

No caso de içamento de cargas no projeto, ele explica que a Valmet tem utilizado os terminais e os próprios armadores para o desembarque das cargas. Já no canteiro de obras, a contratação é feita através das empresas de montagem. “A Enesa, por exemplo, é a empresa que está fazendo a montagem da caldeira de recuperação, o maior equipamento que nós temos ali no site. E é óbvio que eles podem ter aí junto com eles subcontratados para içamento”.

Se qualquer modo, contratados diretamente pela Valmet ou não, todos os fornecedores, segundo ele, tem que estar alinhados com o sistema de gestão global da Valmet (Global Management System). “São políticas e procedimentos globais, desdobrados depois para as legislações de cada país onde atuamos. São padrões globais, em muitos casos, até mais rígidos, mas, no mínimo, nós e os nossos parceiros, temos que atuar em linha com a conformidade e com as leis locais”.

Em resumo, diz Alber Almeida, a segurança operacional é a prioridade. Capacitação técnica e experiência, são fundamentais, com ativos novos, menos poluentes, seguros e mantidos de forma adequada. Os parceiros tem que ter também práticas adequadas e respeitosas com a sociedade, uma saúde financeira, para que não sejam dependentes da Valmet para continuidade das operações. E que saibam preservar nossos equipamentos que são difíceis de serem manufaturados. Então, qualquer tipo de acidente pode prejudicar o tempo do projeto, ele pode prejudicar a eficiência do equipamento. Além, obviamente, da competitividade de custos, que estejam inovando para que a gente possa entregar o projeto no menor custo possível para o nosso cliente e no tempo adequado e com a qualidade”.

Ele lembrou que a Valmet esteve presente nos últimos anos na grande maioria dos projetos de celulose no Brasil, como o retrofit da Klabin em Telêmaco Borba (PR), o Projeto Puma, também da Klabin, o Projeto Star da Bracell e fornecimentos para Suzano e Duratex, mas reforçou: “Hoje, o Sucuriú é imbatível em dimensão e relevância”.

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A LOGÍSTICA ENVOLVIDA NA MONTAGEM DA PLANTA

Em uma complexa logística, peças e equipamentos vindos da China, um dos quais pesando mais de 300 toneladas, desembarcaram nos portos de Paranaguá (PR) e Santos (SP). A jornada dos equipamentos avança agora pelo modal rodoviário, rumo ao canteiro de obras em Inocência, município do estado de Mato Grosso do Sul.

Segundo Cesar Augusto Hein, coordenador logístico da Valmet, antes mesmo da contratação das transportadoras foi feita uma análise prévia da viabilidade do transporte e a identificação preliminar dos desafios para esta operação. “Com antecedência de três a quatro meses, já estávamos trabalhando nas soluções, com base no histórico de projetos anteriores na região e no estudo de rota para identificar restrições”. Essa etapa preliminar contou com uma equipe de cerca de 30 pessoas. Além da Valmet, ele cita a participação de profissionais da TCP, Transpes, PRF, companhias de energia, concessionárias de rodovias e prefeituras.

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Desembarque do Balao da Caldeira, no Porto de Santos -Divulgação: Valmet-Projeto Sucuriú

A entrega mais recente e de maior porte ocorreu no Porto de Santos (SP), com o desembarque do Balão da Caldeira. Considerado o coração do sistema de geração de vapor, o equipamento é o componente mais pesado da caldeira de recuperação. Trata-se de um vaso único, com 32 m de comprimento, 3,15 m de largura, 3,81 m de altura e 312 t. O transporte marítimo entre a China e o Brasil levou cerca de 45 dias. “O balão da caldeira é um dos equipamentos mais importantes da ilha de recuperação. Ele concentra a geração de vapor que sustenta a operação industrial. Receber e preparar a instalação de um componente dessa magnitude, é um marco técnico e logístico que comprova o alto nível de engenharia, planejamento e integração do nosso time”, destaca Fábio Moreira, gerente de projetos da Valmet.

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Divulgação: Valmet-Projeto Sucuriú

A movimentação da carga, com participação da Megatranz Transportes, envolve um comboio de aproximadamente dez veículos, incluindo uma carreta especial com 28 linhas de eixo e três cavalos de tração. A operação conta ainda com escolta particular, apoio da Polícia Rodoviária Federal (PRF) e da Polícia Rodoviária Estadual (PRE), além do suporte das concessionárias de rodovias. A partir de Santos, a rota de aproximadamente 960 km até Inocência (MS), em 48 dias, tem como pontos críticos as capacidades de pontes e raio de curvatura para manobras.

No canteiro de obras, a movimentação do balão estará a cargo de uma empresa de remoção técnica, mais o pessoal de campo da Valmet junto com a montadora. “O balão será instalado a quase 90 m de altura. Em razão do peso e suas dimensões, serão utilizados dois guindastes de 750 t no içamento. Esse é um desafio extraordinário de engenharia e construção — mais um marco que caracteriza megaprojetos como o Sucuriú. Quando içado, marcará oficialmente o início da montagem das partes de pressão do equipamento que será a maior caldeira de recuperação química do mundo”, comenta Claudinei Santos, diretor de engenharia e implantação do Projeto Sucuriú.

O Porto de Paranaguá (PR) também recebeu dois separadores de topo, com 65 t e 6,60 m de altura cada. São as peças com maior altura a serem transportadas no projeto. Esses equipamentos são essenciais para o processo de cozimento da celulose, pois realizam a separação dos cavacos de madeira do licor de cozimento no digestor. Nesse caso, a distância de transporte é de aproximadamente 1800 Km, programado para 120 dias. O estudo preliminar levou em conta a passagem por viadutos e interferências, como cabos de energia, postes, pórticos e balanças.

“Para 2026, está previsto um fluxo contínuo de operações logísticas até o final do ano. Mais de 150 peças de grande porte — como filtros e espelhos de evaporação — ainda devem passar pelos portos brasileiros com destino a Mato Grosso do Sul”, comenta Claudinei, sobre as peças fornecidas pela Valmet.

“O próximo grande marco já está definido: serão os filtros da WLP (White Liquor Plant). A chegada desses equipamentos reflete um progresso significativo no cronograma, e a sinergia entre Valmet e Arauco, com entregas estratégicas para o projeto, de acordo com o cronograma da obra”, ressalta Thiago Brandalize, gerente de projetos da Valmet. “De grandes peças, a logística se encerra este ano, agora itens menores ainda teremos envios”, acrescenta Cesar Augusto Hein.

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Divulgação: Projeto Sucuriú

Sucuríú terá sua própria ferrovia

A Arauco já recebeu as primeiras locomotivas da fabricante Wabtec, que vão compor a frota responsável pelo transporte da celulose produzida na futura fábrica até o Porto de Santos (SP). Serão 26 locomotivas modernas, que vão operar na ferrovia própria da companhia, a EF-A35, atualmente em construção. Com 45 quilômetros de extensão, além de trilhos internos na área industrial, a ferrovia vai conectar diretamente a planta de celulose à Malha Norte, operada pela Rumo. A ferrovia permitirá o escoamento de 3,5 milhões de toneladas de celulose por ano, reduzindo custos e aumentando a eficiência. Além disso, vai evitar cerca de 190 viagens diárias de caminhões, diminuindo em até 94% as emissões de CO₂ em comparação ao transporte rodoviário.

Fornecedores logísticos: certificações e critérios de seleção

Regularização da Transportadora e Veículos

O primeiro passo é a habilitação nos órgãos reguladores para que a empresa tenha permissão legal de solicitar rotas especiais.

  • RNTRC (ANTT): Registro obrigatório para transportadores de carga.
    • Credenciamento de Sistemas: Cadastro ativo no SIAET (DNIT) para rodovias federais e nos sistemas dos DERs (Departamentos de Estradas de Rodagem) para rodovias estaduais.
    • Aferição de Equipamentos: Cavalos-mecânicos e pranchas devem estar com o CSV (Certificado de Segurança Veicular) atualizado e adequados à capacidade de tração necessária.

Capacitação Profissional (O Fator Humano)

O motorista de cargas especiais não é um condutor comum; ele é um técnico especializado.

  • Curso de Cargas Indivisíveis: Formação obrigatória (Resolução CONTRAN) averbada na CNH.
    • Treinamento Específico: Conhecimento em amarração técnica, cálculo de centro de gravidade e direção defensiva para veículos articulados de grande porte.

Estudos de Viabilidade (EVG e EVE)

Antes do caminhão ir para a rua, a rota é “testada” no papel e no campo.

  • EVG (Estudo de Viabilidade Geométrica): Análise de curvas, largura de pistas, altura de fiação elétrica e passarelas para garantir que o conjunto consegue manobrar.
    • EVE (Estudo de Viabilidade Estrutural): Exigido para cargas com peso bruto elevado. Engenheiros analisam se as pontes e viadutos suportam a carga por eixo sem risco de colapso.

Obtenção da AET (Autorização Especial de Trânsito)

A AET é o documento oficial que descreve exatamente o que está sendo transportado e por onde passará.

  • Detalhamento: Contém as dimensões (largura, altura, comprimento e peso), o desenho técnico do conjunto e o itinerário aprovado.
    • Taxas e TUV: Pagamento da Tarifa de Utilização da Via, que compensa o desgaste extra causado ao pavimento.

Logística de Escolta e Operação de Pista

Dependendo do porte da carga, o trânsito precisa ser isolado ou sinalizado.

  • Escoltas Credenciadas: Veículos batedores que sinalizam a frente e a retaguarda do comboio.
    • Escolta Policial: Apoio da PRF ou Polícia Rodoviária Estadual para interrupção de fluxo em pontos críticos.
    • Sinalização Visual: Uso obrigatório de placas de advertência, faixas refletivas e sinalização luminosa (giroflex).

Cronograma e Restrições

O transporte especial respeita horários rigorosos para não prejudicar o fluxo de veículos leves.

  • Horário de Trânsito: Geralmente do amanhecer ao pôr do sol.
    • Restrições de Datas: Proibição de circulação em feriados prolongados e finais de semana em rodovias de pista simples.

Também são analisados:

  • Saúde financeira da empresa;
    • Atendimentos os requisitos de Sustentabilidade exigidos pela Valmet;
    • Capacidade / Conhecimento de operações de transporte de cargas especiais;
    • Histórico de operações já realizadas em projetos similares;
    • Cumprimento das Legislações aplicadas ao transporte de cargas especiais;
    • Engajamento Climático, onde as empresas têm ações para reduzir ou mitigar os impactos do transporte rodoviário x emissão de CO2, como por exemplo, instalação de placas solares nos caminhões, idade média da frota menor que 5 anos, ações nas bases focadas em sustentabilidade, dentre outros…

Além destes exemplos, as transportadoras, assim como qualquer fornecedor Valmet deve receber, tomar ciência e declarar adesão aos princípios do Código de Conduta de Fornecedores Valmet.

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