OPERAÇÃO E TESTES DE DESEMPENHO EM GUINDASTES

OPERAÇÃO E TESTES DE DESEMPENHO EM GUINDASTES

Por: Ronaldo Gonçalves Cruz (*)

Conversando com um amigo há alguns dias, ele comentou que havia contratado o serviço de movimentação de cargas para sua planta e que acabara de receber um guindaste de capacidade acima da que havia sido especificada. Com isto vieram algumas dúvidas, por exemplo, o aspecto em questão foi favorável para minha operação? Como a contratante realizará o teste de desempenho previamente ao início das operações? Pronto! Surgiu assim mais uma oportunidade de compartilharmos conhecimento e opiniões.

Este texto tem como objetivo apresentar referências importantes para o estabelecimento de condições para realização de testes de desempenho, assim como para operação de guindastes.

 1.A capacidade do guindaste

A capacidade de um guindaste, pelos seus princípios de projeto, está correlacionada a combinação peso e distância, mais adequadamente, carga e raio de operação. Desta forma, quando é dito que um guindaste tem 30 t de capacidade, a informação está incompleta, uma vez que não foi citado qual o seu alcance (raio) para operação que atende esta capacidade.

Logo para especificar um guindaste se deve atentar para as condições de serviço demandadas, por exemplo, em uma instalação portuária, como na Figura 1, é necessário que o guindaste tenha uma capacidade de 15 t, mas ele deve estar posicionado a 30 m do ponto de coleta da carga. Esta referência define uma condição de carregamento que o guindaste deve atender e, em geral, se busca definir este ponto como a capacidade fundamental, não necessariamente a máxima. Mas muitos guindastes podem atender tal condição, obviamente máquinas de maiores capacidades nominais, inclusive dotadas de lanças de grande comprimento, o que pode representar um custo elevado desnecessário para a operação pretendida.

guindaste-offshore
Figura 1 – Guindaste em instalação portuária

Atender uma especificação que determina um equipamento de capacidade X t @ Y m pode ter várias respostas, mesmo quando outros pontos fundamentais possam estar definidos. Entram nesta avaliação o já citado custo para quem opera e mantém, a possível maior dificuldade para locomoção do equipamento, a disponibilidade para locação ou na frota da empresa operadora etc. Assim, por vezes, o equipamento apresentado supera a capacidade de içamento apontada na especificação.

Resumo:

  • A capacidade máxima de um guindaste é configurada pela informação do valor da carga máxima que pode ser içada e do seu correspondente raio inicial de operação;
  • A capacidade fundamental é uma referência que precisa ser atendida por um guindaste visando determinada aplicação.
  1. As condições para testes e operação

A designação testes de desempenho tem como objetivo denotar que estes integram avaliação de capacidade, nominalmente de movimentação da carga, e funcionalidade, caracterizados, por exemplo, pela verificação de respostas de comandos efetuados, não limitados a isto.

Os testes devem ser elaborados e conduzidos com procedimentos estabelecidos por profissional legalmente habilitado (PLH)[1] e da mesma forma, a emissão do laudo conclusivo sobre a operacionalidade do guindaste também deve ser ocorrer por um PLH.

Considerando o cenário de um equipamento que tenha como capacidade máxima a condição especificada pelo usuário, se configura a condição mais favorável, uma vez que podem ser seguidas orientações do fabricante do equipamento para os testes, quando disponíveis. Na ausência destas, o PLH ainda terá toda as condições de serviço presentes na tabela de carga original do guindaste para elaborar o procedimento de testes de capacidade.

Mas quando o guindaste apresenta uma capacidade máxima maior do que a requerida? Se a máquina atende a condição fundamental especificada até mesmo com uma certa folga de capacidade, como devem ser definidas as suas condições de testes? Retornando ao exemplo citado anteriormente, considere a condição fundamental como 15 t @ 30m, enquanto o guindaste recebido teria uma capacidade máxima de 90 t e no raio de 30 m, a capacidade como de 45 t.

Neste caso o equipamento poderia ser testado considerando sua capacidade plena, identificando inicialmente qual o raio para a operação com 90 t e usar as referências do fabricante ou na ausência destas, como citando anteriormente, as estabelecendo por um PLH. Mas por vezes a carga máxima original não seria utilizada ou mobilizar tal carga para teste implicaria em outros inconvenientes e ainda, maiores riscos à segurança, então se opta por testar o guindaste limitando sua capacidade a necessária.

O PLH, a partir de toda documentação técnica do equipamento, estabelece as condições para teste em um procedimento, define também a tabela de carga que deverá ser utilizada na operação no dia a dia, fixando a mesma na cabine do guindaste, devendo ser prevista formalmente a atualização dos operadores nas novas condições estabelecidas.

IMPORTANTE: Nestas máquinas todos os sistemas devem ser submetidos as condições mais severas de serviço, visando se atestar sua adequada capacidade e funcionalidade. Então sistemas de elevação de cargas, elevação de lança e de giro devem ser testados em condições que seus componentes sejam submetidos ao máximo carregamento, que não são necessariamente resultantes da elevação da capacidade máxima de içamento. Cabe ao PLH definir tais condições a partir da tabela de carga original do equipamento ou reduzida, como no exemplo abordado no texto.

Resumo:

  • O procedimento de testes de desempenho de um guindaste deve ser elaborado por um profissional legalmente habilitado (PLH);
  • O laudo sobre a operacionalidade de um guindaste pós testes de desempenho deve ser validado por um PLH;
  • Um guindaste pode ter sua capacidade reduzida para operação, devendo ser estabelecida por um PLH, ter fixada na cabine de operação a tabela de carga, ter seu conteúdo formalmente apresentado aos operadores e ser base para o estabelecimento do procedimento de testes de desempenho.

A Figura 2 mostra o teste de desempenho de um guindaste offshore com bolsas d’água como cargas de teste.

Teste de um guindaste offshore
Figura 2 – Teste de um guindaste offshore
  1. Referências úteis

A seguir, relacionamos algumas referências  que podem ajudar profissionais atuantes em movimentação de cargas no seu dia a dia operacional.

Como definições:

  • teste de capacidade – teste que visa avaliar a capacidade do equipamento de movimentação de carga conforme condições do projeto, orientações do fabricante ou apontamentos estabelecidas por um profissional legalmente habilitado capacitado no tema;
  • teste funcional – teste que se destina a avaliar as respostas adequadas dos sistemas e recursos do equipamento de movimentação de carga, incluindo dispositivos de segurança.

Antes de um teste de desempenho:

Realizar uma inspeção completa, considerando a avaliação de aspectos estruturais e funcionais para verificar se o guindaste está em condição normal de operação, sem possíveis pendências impeditivas à realização dos testes.

Quando realizar um teste de desempenho:

  1. no recebimento de uma máquina nova ou houver transferência de responsabilidade pelo equipamento internamente na empresa;
  2. após ocorrências como: acidentes e erros de operação (p.ex. carga excessiva);
  3. previamente a operações de risco elevado;
  4. após um importante reparo, modificações de características originais ou revisão geral;
  5. constatada rastreabilidade deficiente de intervenções de manutenção.

 Diante de restrições de capacidade:

A seguir, uma proposição de caminho lógico e técnico que pode ser seguido em situações em que uma tabela de carga reduzida precisa ser implementada. Como se trata de uma mudança, se deve conduzir a gestão da mesma conforme preconizado na empresa.

  1. disponibilizar a análise técnica que indica as novas capacidades, informando a motivação para o estudo, os dados e critérios utilizados, sendo elaborada por um PLH;
  2. configurar a nova tabela de carga, a identificando como provisória;
  3. apresentar a tabela ao responsável pela operação do guindaste, devendo a mesmo ser formalmente divulgada aos operadores;
  4. instalar a tabela de carga provisória na cabine do guindaste, informando o documento associado à implementação, sendo identificado o equipamento e o autor.
[1] Trabalhador previamente qualificado e com registro no competente conselho de classe, se necessário. (NR-12 – SEGURANÇA NO TRABALHO EM MÁQUINAS E EQUIPAMENTOS

Assim, esperamos que este artigo seja mais uma contribuição para a operação segura de guindastes, sem nenhuma pretensão de esgotar o tema abordado, mas quem sabe, incentivar o aprofundamento sobre o mesmo.

Bom e seguro trabalho!

(*) ronaldo cruzRonaldo Gonçalves Cruz, engenheiro mecânico e de segurança, com 35 anos de experiência em inspeção de equipamentos de movimentação de cargas offshore na Petrobras. Atualmente é diretor técnico da Cargopro Engenharia. Contatos: ronaldo.cruz@cargopro.com.br

 

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