Por Ronaldo Gonçalves Cruz (*)
Ao completar quatro anos publicando artigos relacionados à movimentação de cargas, tendo como temas os guindastes, seus operadores, a preocupação com a integridade e conformidade normativa, a evolução tecnológica etc., preciso pedir desculpas por não ter manifestado ainda este reconhecimento a um grupo de profissionais fundamental para os sucessos de operações dessa natureza.
Ele é o sinaleiro amarrador, conhecido também como auxiliar de movimentação de cargas, que, por vezes, está a cargo de guiar os operadores das grandes máquinas em diversas situações nas diferentes áreas: E&P on e offshore, construção civil, portuária etc., por exemplo, como representado na Figura 1. Além da sinalização, a atuação não está limitada a conectar uma carga ao gancho de içamento, mas inclui selecionar as lingas de extensão e outros acessórios que serão empregados; verificar as condições de integridade destes recursos, assim como dos contentores empregados; acomodar adequadamente nestes as cargas que serão movidas, devidamente amarradas com foco no equilíbrio do conjunto e, em segurança, ao isolar áreas de risco para realização de uma operação.

É inconcebível pensar em uma movimentação de cargas sem a atuação do sinaleiro amarrador, assim como menosprezar os riscos associados a sua atuação. Tenho uma admiração particular por um engenheiro que atuou por um tempo nesta função, vivenciando na prática as dificuldades representadas pelo demasiado esforço físico e extrema demanda de atenção requerida pela atividade, uma vez que estes profissionais passam por momentos “de ação” dignos de um herói de cinema. A diferença é que neste “filme”, os atores se machucam de verdade.
A Figura 2, que mostra a conexão de uma linga de extensão a um gancho de içamento de um guindaste em uma instalação offshore flutuante, representa bem um dos momentos de risco que a que estão sujeitos os profissionais atuantes.

Também é de conhecimento ser comum que estes profissionais atuem em outras atividades nas “janelas” entre uma movimentação e outra, por exemplo, no segmento E&P, recebendo um helicóptero como bombeiro a bordo de uma instalação offshore e também atuando na limpeza industrial. Não há a intenção neste texto de discutir a adequabilidade de tais atribuições adicionais, mas propor a reflexão na busca da manutenção da integridade de pessoas e instalações neste cenário de atuação tão diversificada.
Retornando à movimentação de cargas, assim como observado sobre o operador de guindastes no Brasil, não há um programa de treinamento regulamentado para qualificação do sinaleiro amarrador. Nos últimos anos tem sido percebida a preocupação com esta lacuna, normas regulamentadoras como NR-18[1] e NR-37[2] receberam complementos relacionados a capacitação e reciclagem da função sinaleiro, abordando a execução e a segurança das tarefas citadas anteriormente neste texto.
Desta forma é digna de parabenização a atuação da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) ao promover, em conjunto com empresas e profissionais especialistas neste ramo, o desenvolvimento de normativa destinada a certificação destes profissionais. A norma ABNT NBR 17089, Qualificação e certificação de pessoas para içamento e movimentação de carga com equipamentos de guindar para trabalho onshore – Requisitos, estabelece disposições que viabilizam o reconhecimento da qualificação e atualização de sinaleiros experientes, considerando um programa de treinamento mínimo. É muito importante observar que não se trata de uma norma relacionada a qualificação inicial destes profissionais.
A reboque deste movimento, uma normativa de mesma natureza destinada aos sinaleiros offshore está a caminho. Iniciativas como a da Petrobras em incluir em sua norma interna de segurança em movimentação de cargas, a N-2869 – agora pública e que já foi tema de artigo na edição 100 da Crane Brasil, um conteúdo programático considerado pela mesma como adequado a qualificação inicial do sinaleiro, ratificam o reconhecimento da necessidade de assegurar o preparo destes profissionais.
Diante do exposto, fica evidente que bases não faltam para subsidiar o estabelecimento de um programa básico regulamentado para formar sinaleiros amarradores, sendo isto apenas uma questão de tempo.
As informações contidas neste artigo não são inéditas, pelo contrário, até bem conhecidas por quem atua em movimentação de cargas, mas agrupá-las ajuda a mostrar por que o valor deste profissional no processo tem sido reconhecido, como pode ser percebido e o que ainda deve ser feito. Afinal a ele também se deve a continuidade, segurança e sucessos de operações, desde as mais rotineiras às mais complexas. Nossos agradecimentos a todos os sinaleiros amarradores.
(*) Ronaldo Gonçalves Cruz, engenheiro mecânico e de segurança, com 35 anos de experiência em inspeção de equipamentos de movimentação de cargas offshore na Petrobras. Atualmente é diretor técnico da Cargopro Engenharia. Contatos: ronaldo.cruz@cargopro.com.br
[1] NR-18 – SEGURANÇA E SAÚDE NO TRABALHO NA INDÚSTRIA DA CONSTRUÇÃO

Ronaldo, muito bem lembrado, esses trabalhadores são parte integrantes da equipe e muitas vezes, não merecem a atenção e importância devidas. Na maioria das vezes ofuscados pelo guindaste e o operador, não são coadjuvantes, são atores principais também. Parabéns pelo artigo.