No dia 31 de outubro, o Brasil terá uma oportunidade única de começar a superar um dos principais desafios do setor elétrico nacional. O Leilão nº 4/2025 (transmissão de energia), na sede da B3, em São Paulo, prevê a licitação de 11 lotes, com investimento estimado de R$ 7,6 bilhões. Esse leilão representará um passo significativo para modernizar e expandir a rede elétrica, promovendo maior segurança energética, eficiência operacional, integração de renováveis e justiça tarifária. Os benefícios vão desde a redução das perdas e conforto elétrico até o estímulo econômico em regiões estratégicas.
Com prazo para conclusão das obras variando entre 42 e 60 meses, dependendo da complexidade da construção, o leilão estabelece a construção e manutenção de 1.178 quilômetros em linhas de transmissão novas e seccionamentos e de 4.400 mega-volt-ampere (MVA) em capacidade de transformação, além de um controle automático rápido de reativos e sete compensações síncronas. Os empreendimentos no edital têm previsão de instalação em 13 estados: Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraíba, Paraná, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Rondônia e São Paulo.
Claro que o Leilão nº 4/2025 não resolverá todos os desafios para desenvolvimento do setor elétrico nacional. Para lá de conhecidos, aliás: dependência de fontes hidrelétricas (um problema em anos de seca ou estiagem prolongada); falta de Integração de fontes renováveis variáveis (um fator decisivo com o aumento da geração eólica e solar); burocracia regulatória e insegurança jurídica; expansão da demanda energética; dentre outros. (veja “Principais desafios regulatórios para Investimentos”). Mas uma alavancagem na transmissão será decisiva para equacionar alguns problemas estruturais do setor.
Em primeiro lugar, responder à expansão da geração (especialmente renovável no Nordeste e Centro-Oeste), via de regra, nem sempre acompanhada pela expansão das linhas de transmissão. As ações previstas fortalecem a interligação dessas áreas com os centros de consumo nas regiões Sudeste e Sul. O que viabiliza o uso pleno da capacidade instalada, sem restrições. A inclusão de compensadores reativos também melhora a qualidade da tensão, reforçando a estabilidade e confiabilidade do fornecimento.
Único para transmissão que será realizado pela ANEEL em 2025, o Leilão nº 4/2025 traz algumas novidades importantes que contribuem para a viabilização de seus objetivos. Foi precedido por consulta pública, análise do TCU e depende da caducidade de contratos antigos – fatores que reforçam segurança jurídica e para o investidor. As construções com prazo seguem cronogramas alinhados ao planejamento nacional, evitando que geração contratada fique sem escoamento. A fragmentação dos 11 lotes, incluindo lotes subterrâneos menores, é outro aspecto importante, pois permite a participação de diferentes perfis de empresas – grandes, médias e regionais. Maior concorrência que tende a gerar deságios (redução de preços), resultando em tarifas de transmissão mais eficientes.
O Brasil mantém foco em renováveis (82% da matriz em 2025) e esse fator o coloca com um player competitivo no conjunto das nações. Segundo o Plano de Ação de Operação de Longo Prazo (PAR/PEL) e o Operador Nacional do Sistema (ONS), o país conta com uma capacidade total instalada de geração elétrica de cerca de 230 GW (dados de dezembro de 2024/janeiro de 2025).
As hidrelétricas + PCHs (Pequenas Centrais Hidrelétricas) respondem por aproximadamente 108 GW (46–47 %), a geração eólica por 33,7 GW, instalados até 2024, equivalente a 14–15 % da capacidade total, a solar fotovoltaica: em fevereiro de 2025, estava em 53,9 GW, ou aproximadamente 21–22 %. E o restante (~15 %) inclui térmicas (gás natural, biomassa, óleo combustível), geração distribuída de biomassa, nuclear e micro/minigeração distribuída. E o melhor é que há uma tendência clara de rápido crescimento em solar e eólica, com ambos os segmentos contribuindo com recordes de expansão: só em 2024, entrando mais de 5,6 GW de solar e 4,3 GW de eólica.

Panorama do Setor Eólico no Brasil
O relatório anual GWEC Global Wind Report 2025, divulgado no mês de maio, é bastante otimista em relação ao segmento eólico. E não deixa de considerar o cenário desafiador: “altas taxas de juros, PIB instável, redução na demanda por novos projetos, excesso de oferta de energia e aumento no corte de energia”. Para os analistas do GWEC, o crescimento do segmento em 2024, a despeito desses desafios, foi bastante significativo.
O entendimento é que o setor de energia eólica no Brasil passou por uma transformação significativa em 2024, marcada por avanços legislativos que posicionaram o país como um ator-chave no cenário global de energia renovável e abriram finalmente o mercado eólico offshore brasileiro. Com 33,7 GW, distribuída entre 1.103 parques eólicos e 11.720 turbinas, foram adicionados 3,3 GW e 23,3 MW de capacidade repotencializada. Para o GWEC também é notável a projeção de instalação de 56 GW adicionais de capacidade até 2032. “Com forte apoio governamental, investimentos estratégicos e avanços legislativos, o Brasil está preparado para uma nova fase de crescimento e expansão no setor eólico”.
O desenvolvimento da cadeia de suprimentos do setor eólico no país não deixa de ser notado no relatório do GWEC, citando os investimentos locais da fabricante chinesa Goldwind, da Vestas e da HINE do Brasil. Os analistas do GWEC veem também avanços legislativos e institucionais, como o Fundo Nacional sobre Mudança do Clima (FNMC), o marco legal para o hidrogênio de baixo carbono e o marco regulatório para projetos de energia eólica offshore. E têm a perspectiva de novos incentivos fiscais em projetos de transição energética.
É um cenário ideal e demasiado otimista para todos os que conhecem diretamente a realidade brasileira e sabem da morosidade com que são tomadas as decisões no setor público. Durante o SENDI 2025 (Salão de Distribuição de Energia Elétrica), maior evento do setor na América Latina, que reuniu os principais players do segmento entre 27 e 30 de maio de 2025, no Expominas, em Belo Horizonte (MG), ficou evidenciado que o setor elétrico brasileiro enfrentará desafios complexos na próxima década, impulsionados por mudanças tecnológicas, pressões climáticas e demandas por eficiência e sustentabilidade.
E para tanto, serão necessários investimentos maciços (R$ 150 bi até 2030, segundo a EPE – Empresa de Pesquisa Energética) e cooperação entre governo, empresas e academia. Esse aporte, que deverá ser direcionado para várias frentes estratégicas, como expansão e modernização da Transmissão (R$ 60–70 bi), daí a importância do Leilão nº 4/2025, geração de energia (R$ 50–60 bi), distribuição e redes inteligentes (R$ 20–30 bi), armazenamento de energia (R$ 5–10 bi), mobilidade elétrica (R$ 3–5 bi) e pesquisa & Inovação (R$ 2–3 bi).
Em resumo, os R$ 150 bi refletem a necessidade de equilibrar confiabilidade, sustentabilidade e custo. O Brasil tem potencial para ser um líder em energia limpa, e atender ao aumento da demanda global, liderado pela eletrificação veicular em larga escala e as necessidades aparentemente ilimitadas dos grandes data centers de Inteligência Artificial, mas depende de estabilidade regulatória e agilidade na execução.
Novos Investimentos no setor elétrico
Os investimentos mais recentes no setor elétrico brasileiro, divulgados em 2024/2025, focam em expansão de renováveis, modernização da infraestrutura e integração regional.
1. Leilões de Energia (2024-2025)
Leilão A-4 (2024): Contratação de 1.8 GW de projetos eólicos e solares, com investimentos previstos de R$ 8 bilhões, principalmente no Nordeste.
Leilão de Transmissão (2025): Licitação de 6.3 mil km de linhas de transmissão, com R$ 18 bilhões em investimentos para reduzir gargalos no escoamento de energia.
2. Expansão de Renováveis
Energia Eólica: Novo parque eólico no Rio Grande do Norte (0.5 GW, R$ 2.5 bi) e ampliação de complexos no Piauí. Energia Solar: Usina fotovoltaica no Ceará (0.3 GW) e projetos de geração distribuída em Minas Gerais.
Hidrogênio Verde: Parceria entre EPE e empresas europeias para projetos piloto no Ceará e Bahia.
3. Modernização da Rede
Smart Grids: Investimento de R$ 1.2 bi em redes inteligentes para reduzir perdas técnicas (ex: Eletrobras em São Paulo). Armazenamento: Baterias em larga escala associadas a parques eólicos (RN e BA), com aportes de R$ 900 milhões.
4. Termelétricas a Gás Natural
Novas usinas no Amazonas e Maranhão (1.2 GW) para garantir segurança energética, com críticas por custos ambientais.
5. Hidrelétricas e PCHs
Retomada de estudos para pequenas centrais hidrelétricas (PCHs) na região Norte, com foco em baixo impacto ambiental.
6. Integração Regional
Linha de transmissão Brasil-Argentina (R$ 2 bi) para exportação de excedentes de renováveis.
Fonte: Dados consolidados da EPE (Empresa de Pesquisa Energética) e ANEEL, com base em relatórios de 2024 e editais de leilões recentes
Faça aqui o download do relatório consolidado dos 267 empreendimentos de energia elétrica atualmente em construção, segundo informações da ANEEL-junho 2025
Principais desafios regulatórios para investimentos
Os principais desafios regulatórios para investimentos no setor elétrico brasileiro em 2024/2025 incluem: Incerteza Regulatória e Mudanças Normativas, Ambiente Tributário Complexo Sobretaxas e encargos setoriais (CDE, ESS, TFSEE) que encarecem projetos; Divergências estaduais (ICMS diferenciado por estado) para geração distribuída e transmissão; Licenciamento Ambiental Demorado; Restrições ao Acesso à Rede; Riscos Contratuais e Integração de Fontes Intermitentes.
Esses desafios elevam o custo de capital e desestimulam players internacionais, atrasando a expansão da capacidade necessária para atingir as metas de descarbonização (ex: Plano Nacional de Energia 2050). Soluções em Discussão: Simplificação do licenciamento via “Lei das Licenças” (PL 2.159/2024); Criação de um mercado de capacidade para garantir segurança energética e Padronização tributária para renováveis em consulta pública no MME.
Impacto da Inteligência Artificial no Consumo

A inteligência artificial (IA) já está impactando significativamente o consumo de energia elétrica no mundo, e essa tendência deve se intensificar nos próximos anos. A seguir, estão os principais pontos extraídos do mais recente relatório da Agência Internacional de Energia (IEA na sigla em inglês):
Os modelos de IA exigem enorme poder computacional, especialmente durante o treinamento. Em 2022, data centers consumiram cerca de 460 TWh, segundo a Agência Internacional de Energia (IEA). A inferência em tempo real, embora menos intensiva, representa um consumo significativo devido ao uso em larga escala. A IEA projeta que o consumo dos data centers pode dobrar até 2030, alcançando 945 TWh por ano. Nos EUA, espera-se que esse consumo atinja 606 TWh até 2030, representando 11,7% da demanda total de eletricidade. Empresas como Microsoft, Google e Amazon estão expandindo suas infraestruturas de data centers.
A demanda crescente pressiona redes elétricas e pode aumentar emissões de CO₂ se suprida por fontes fósseis. O uso de fontes renováveis para alimentar data centers pode mitigar parte desse impacto. A expansão pode exigir até US$ 7 trilhões em investimentos até 2030.
Por outro lado, a IA também pode otimizar o consumo de energia através de: redes elétricas inteligentes (smart grids), maior eficiência em processos industriais, otimização de consumo residencial e comercial, além de previsão de demanda e manutenção preditiva.
Investimentos Globais na Transição Energética
Um novo relatório da KPMG revela que os investimentos globais em transição energética ultrapassaram US$ 2 trilhões em 2024, quase o dobro do registrado em 2020. A pesquisa, baseada em respostas de 1.400 investidores em 36 países e 11 setores, mostra um crescimento expressivo em áreas como tecnologias de eficiência energética, energias renováveis, armazenamento, redes e infraestrutura de transporte.
Destaques do relatório: 64% dos investidores aplicaram recursos em tecnologias de eficiência energética; 72% acreditam que os investimentos continuarão crescendo, apesar da volatilidade geopolítica e das taxas de juros elevadas; Apenas 15% dos investimentos chegam aos mercados emergentes, revelando um desequilíbrio significativo.
Donatas Karčiauskas, CEO da Exergio — empresa especializada em ferramentas de otimização energética com inteligência artificial — alerta para a baixa atenção dada às soluções digitais. Segundo ele, tecnologias como manutenção preditiva, gêmeos digitais e sistemas avançados de gestão predial já oferecem resultados rápidos e comprovados, especialmente relevantes em mercados com menos infraestrutura.
Desafios identificados pelos investidores: Incerteza regulatória; Volatilidade de mercado; e Riscos de desempenho de novas tecnologias.
Karčiauskas destaca que muitos investidores ainda esperam por políticas favoráveis, ignorando soluções tecnológicas já disponíveis que exigem menor investimento de capital e apresentam retornos mais rápidos. Em centros comerciais e complexos empresariais, a tecnologia da Exergio já reduziu o consumo de energia em até 44% e economizou milhões de euros.
A expectativa é que a eficiência energética deixe de ser um objetivo secundário e se torne o principal instrumento para alcançar metas climáticas e econômicas. Para isso, será necessária uma mudança de mentalidade: em vez de construir mais, é preciso operar de forma mais inteligente com o que já existe.
2,8 GW Micro e minigeração distribuída em 2025
Em quatro meses, de janeiro a abril de 2025, a micro e minigeração distribuída cresceu 2,8 GW no Brasil. Os sistemas instalados no primeiro quadrimestre de 2025 passaram a gerar créditos para 393 mil imóveis – entre casas, comércios, fazendas e outros. Os dados constam do painel interativo da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), mantido a partir de informações enviadas pelas distribuidoras de energia. Com a MMGD, o consumidor gera energia elétrica, a partir de fontes renováveis ou cogeração qualificada, e injeta na rede de distribuição a energia não utilizada, recebendo créditos para usar nos momentos em que não está gerando, por meio do Sistema de Compensação de Energia Elétrica (SCEE). Mais de 50 mil usinas de MMGD foram instaladas em abril, reunindo uma potência de 524,50 megawatts (MW). Começaram a funcionar no mês 50.655 usinas solares fotovoltaicas e uma usina termelétrica a biogás, localizada em Inhumas/GO.
20 milhões de veículos elétricos em 2025
Após mais um ano de crescimento robusto, as vendas globais de carros elétricos estão no caminho de superar 20 milhões em 2025, representando mais de um quarto de todos os carros vendidos no mundo, de acordo com a nova edição do relatório anual Global EV Outlook, da Agência Internacional de Energia (IEA). Apesar das incertezas significativas, a participação de mercado dos carros elétricos está a caminho de ultrapassar 40% até 2030, à medida que se tornam cada vez mais acessíveis em mais mercados, mostra novo relatório da IEA.
O relatório também traz um foco especial nos caminhões elétricos e nos custos de posse. Constatou-se que, globalmente, as vendas de caminhões elétricos aumentaram cerca de 80% no ano passado, representando quase 2% de todas as vendas de caminhões no mundo. Esse crescimento, impulsionado pela duplicação das vendas na China, foi favorecido pela competitividade de custo de alguns caminhões elétricos pesados em relação aos seus equivalentes a diesel – com os custos operacionais muito mais baixos dos modelos elétricos compensando seus preços de compra mais altos.
No Brasil, o mercado de veículos eletrificados no Brasil registrou forte alta em maio, com 16.641 unidades vendidas, o que representa um crescimento de 12,7% em relação a abril (14.759). Na comparação com maio de 2024 (13.612), houve crescimento de 22,25%. De janeiro a maio, as vendas acumuladas de modelos eletrificados, que englobam as categorias BEV (veículos 100% elétricos), PHEV (híbridos plug-in), HEV e HEV Flex totalizaram 71.324 unidades. O volume representa um aumento de 19,5% frente ao mesmo período de 2024 (59.669).
O grande destaque de maio foram os BEV, que registraram recorde de venda, com um total de 6.969 veículos, aumento de 48,2% em relação a abril (4.702). Na comparação com maio de 2024 (5.175), esse crescimento foi de 34,7%.
O segmento dos 100% elétricos não registrava um número tão expressivo desde abril de 2024, quando foram vendidas 6.705 unidades. Enquanto isso, observa-se uma tendência de queda na participação dos híbridos convencionais (HEV e HEV Flex), possivelmente refletindo uma evolução natural do mercado rumo à eletrificação total.

Integração de parques eólicos e solares
Relatório da Agência Internacional de Energia (IEA), intitulado “Integrating Solar and Wind: Global Experience and Emerging Challenges”, destaca o crescimento acelerado da energia solar fotovoltaica (PV) e eólica entre 2018 e 2023, com a capacidade instalada mais que dobrando e sua participação na geração de eletricidade quase duplicando. Esses avanços são essenciais para atingir metas climáticas globais, mas dependem de uma integração eficaz nos sistemas elétricos.
A IEA alerta que até 15% da geração prevista de renováveis variáveis (VRE) para 2030 poderá ser desperdiçada caso não sejam adotadas medidas adequadas de integração, o que comprometeria metas de redução de emissões. O relatório apresenta um panorama global inédito de 50 sistemas de energia que respondem por 90% da geração solar e eólica mundial, identificando soluções eficazes em diferentes fases de adoção.
A integração bem-sucedida depende de políticas públicas estratégicas, modernização das redes, incentivos regulatórios e colaboração entre governos e operadores do setor. Países como Dinamarca, Espanha e Austrália demonstram que é possível integrar altos níveis de VRE com tecnologias já disponíveis, desde que haja vontade política e planejamento adequado. Para o Brasil e demais economias emergentes, há grande potencial de avanço com base na experiência internacional acumulada.


