Por: Leonardo Scalabrini (*)
No ano passado lembro de ler uma estatística presente em um relevante veículo de comunicação nacional noticiando que acidentes de trânsito com motocicletas representam a maior proporção de mortes, sendo responsáveis por quase 40% destes. Automóveis de passeio, por exemplo, correspondiam à praticamente metade em relação às motos, com uma representação de aproximadamente 22%.
Mesmo antes de ler essa matéria, sempre fiquei incomodado com a relação itens de segurança que existem nas motocicletas, principalmente comparando com os que são exigidos para os carros.
Evidentemente que o assunto deste artigo não será discorrer sobre os motivos ou razões que permitem que essa discrepância em relação aos dispositivos de segurança entre automóveis e motocicletas. Mas sim, trazer esse recorte como exemplo para levantar uma discussão entre o que é exigido para um guindaste articulado e um guindaste telescópico sobre pneus.
Atualmente, é seguro afirmar que para um guindaste telescópico prestar serviço em áreas industriais, áreas portuárias, na construção civil é necessário que ele cumpra uma série de requisitos em relação aos seus dispositivos de segurança. É obrigatório que ele possua, pelo menos:
- Indicador de Momento e Carga (LMI – Load Moment Indicator), que é o computador do guindaste;
- Célula de Carga ou Transdutor de Pressão, que permite ao operador do guindaste visualizar a carga que está sendo içada em tempo real pelo LMI;
- Sensor de Limitador ou Fim de Curso, que impede que o moitão/bola seja recolhido indevidamente, evitando choque com a(s) ponta(s) da(s) lança(s);
- Sensor de Pressão das Patolas, que permite ao operador acompanhar em tempo real as cargas que estão sendo aplicadas nas patolas nas etapas da movimentação de cargas;
- Anemômetro, que informa a velocidade real do vento no momento do içamento.

Felizmente, nosso mercado está preparado para atendimento a estes itens e, hoje, raramente vemos um guindaste telescópico sobre pneus sem a presença destes dispositivos. Todavia, quando analisamos um outro tipo de equipamento, que tem a mesma aplicação – içamento e movimentação de cargas – observamos que os guindastes articulados (ainda) não são equipados com tais ou aparatos similares.
Conforme já citei em artigos anteriores, tive o privilégio de viajar o país ministrando cursos, coletando dados para elaboração de planos de rigging e participando (em diferentes níveis) de atividades de içamento de cargas. Um dos ganhos mais ricos que tive, foi a troca de experiências com operadores e sinaleiros de guindastes, principalmente nos treinamentos. E um questionamento por parte deles sempre foi repetitivo:
“Quanto maior a carga (e por consequência) o tamanho do guindaste, maior deverão ser os cuidados a serem tomados no planejamento e na operação de içamento e movimentação da carga?”
Minha resposta para a pergunta sempre foi a mesma: para todo içamento e movimentação de carga, independente do peso dela e dos tamanhos, modelos e quantidade de guindastes envolvidos, o planejamento e operação sempre devem ser realizados de forma técnica e correta.
E complementava: na verdade eu me preocupo são com os içamentos com cargas menores, que utilizam guindastes de menor capacidade.
Sabemos que na maioria das empresas, a exigência para elaboração do Plano de Içamento (etapa do planejamento) seguem critérios como peso de carga maior de 10 toneladas, por exemplo, ou quando envolvem mais de um equipamento, ou na proximidade de redes de energias, dentre outros.
Assim, aquelas operações onde de fato as cargas têm peso maiores e envolvem os guindastes de maior capacidade, são aquelas com um maior acompanhamento em todas as fases do processo. E a probabilidade de um acidente ocorrer é bem menor.
Sem ter realizado nenhuma pesquisa estatística, arrisco a dizer que pelo menos 80% dos içamentos realizados no Brasil, com guindastes telescópicos e guindastes articulados, são feitos sem a elaboração do Plano de Içamento por um responsável técnico. São nestas operações que ocorrem a maioria dos acidentes, atualmente.
Neste cenário, a etapa do planejamento da movimentação de cargas, fica quase que exclusiva à cargo da equipe operacional: operador e sinaleiro. Que são responsáveis pela coleta/levantamento do raio de trabalho, altura do içamento e, principalmente, do peso da carga que será movimentada.
Quando a operação é realizada com o guindaste telescópico, o operador tem em seu auxílio todos os dispositivos de segurança citados anteriormente, presentes nos seus equipamentos.
Todavia, para a maioria dos guindastes articulados, não há disponibilidades destes itens. Nos equipamentos mais modernos, até existem o sistema contra sobrecarga, que automaticamente abaixa a lança do guindaste quando o peso da carga excede a capacidade do equipamento. Entretanto, falta ainda a exigência para que todos nossos guindastes articulados sejam equipados com células de cargas em conjunto com o indicador de momento e carga.
O guindaste que não é capaz de informar para seu operador o valor da carga em tempo real pode ser comparado com um avião, em que o piloto precisa voar às cegas, sem auxílio de seus instrumentos.
É necessário equipar os guindastes articulados com a maior quantidade possível de dispositivos de segurança, se aproximando ao máximo do que é exigido para o guindaste telescópico sobre pneus. Afinal estes dois tipos de equipamentos exercem a mesma atividade e nas mesmas áreas. O que muda é somente o tipo de construção da máquina.

Nem que num primeiro momento, os guindastes articulados sejam equipados somente com dinamômetros móveis, a serem montados logo abaixo de seus ganchos. Já será, sem dúvida, um ganho muito grande em prol da segurança.
(*) Leonardo Scalabrini, estuda e desenvolve projetos de tecnologia para o segmento de içamentos e guindastes, área na qual atua desde 2000. Contatos: leoscalabrini@gmail.com
