EMPREGO DE APLICATIVOS DE VISTORIAS NO E&P

EMPREGO DE APLICATIVOS DE VISTORIAS NO E&P

Por Ronaldo Gonçalves Cruz (*)

A questão

Aplicativos para realização de vistorias em equipamentos fazem parte da realidade atual, já presentes em processos mandatórios dessa natureza no segmento E&P, onde continuidade operacional segura demonstra competência.

Mas realmente esses aplicativos estão sendo utilizados em conformidade com normativas aplicáveis, respaldados tecnicamente e atendendo as necessidades do gestor das operações, ou visam cumprir figurativamente uma demanda legal?

Nesse texto são apresentados pontos de atenção que permitem distinguir o uso de um aplicativo de vistorias com pleno foco em conformidade, engenharia e segurança, da subutilização ocasionada pelo desconhecimento do parque de equipamentos escopo e/ou da normativa aplicável.

O processo objeto

A disponibilidade do sistema de movimentação de cargas de uma instalação offshore é uma variável crítica para a continuidade operacional, uma vez que os equipamentos que integram este sistema, principalmente os guindastes, como o da Figura 1, viabilizam o recebimento e a movimentação dos insumos necessários para produção e subsistência da vida humana no mar. Considerando como justificada a criticidade do sistema de movimentação de cargas na exploração e produção de petróleo  (E&P), o mesmo foi utilizado como referência para esta abordagem neste trabalho.

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Figura 1 – Guindaste offshore

A busca pela continuidade operacional destas máquinas com segurança visa também atender às determinações legais vigentes no país relacionadas à operação e manutenção (O&M). Logo planos destinados a observar a integridade e funcionalidade dos equipamentos integrantes do sistema são estruturados com base em referências técnicas, normativas internas e externas à empresa e a partir destes, listas de verificações são estabelecidas se tornando ferramental de monitoração.

Ocorrências como a iminência de escape da fixação do cabo de aço de um guindaste à sua estrutura, como ilustrado na Figura 2, podem ser identificadas em vistorias prévias a operação, evitando consequências desastrosas.

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Figura 2 – Quase escape de ancoragem de cabo de aço

A evolução tecnológica colocou à disposição nos últimos anos smartphones como ferramentas de coleta de dados lançando mão de APP específicos, recursos capazes de guiar, registrar e disponibilizar os resultados de listas de verificações on-line aplicadas sobre máquinas.

Com isto as vistorias, designemos assim as intervenções efetuadas a partir das listas de verificações, são otimizadas e compartilham dados em tempo real com os sistemas de gerenciamento de processos.

Mas a análise crítica de registros de vistorias, independente de uso ou não de APPs, tem mostrado a presença de apontamentos de caráter geral, por vezes incompletos, demandando constantes revisões de listas de verificações para se prever a realização do tecnicamente necessário. Desta forma, para que os benefícios do emprego de APPs sejam maximizados a base técnica precisa estar adequada.

Adicionalmente, a conformidade legal é um aspecto de observação permanente, sendo as vistorias escopo de auditorias conduzidas por entidades fiscalizadoras tanto quanto as suas efetivas realizações, responsabilidades envolvidas, bem como quanto aos devidos desdobramentos resultantes das constatações nestas efetuadas.

Entendendo como momento oportuno, este artigo relaciona pontos de atenção para a que a adoção de APPs de vistoria seja maximizada em termos dos benefícios para a operacionalidade com segurança de um sistema crítico, no caso abordado, movimentação de cargas.

Os aplicativos

Disponíveis em diferentes níveis de complexidade e recursos, desde APPs comerciais não correlacionados a um sistema de gerenciamento de processos de manutenção de uma empresa do E&P, os denominemos como independentes, a aqueles que estão totalmente integrados a este. Um APP independente tem os acessos de usuários efetuados por login e senha sem vínculo com um sistema da empresa; os cadastros de equipamentos, assim como de usuários e instalações, não são compartilhados; a programação de vistorias não segue automaticamente ordens de serviço emitidas pelo sistema da empresa e os registros efetuados são armazenados em um site independente, podendo ser acessados ou recebidos, mas o APP não altera ou introduz dados no sistema de gerenciamento interno da empresa.

Quando um APP é integrado há a necessidade de uma interação maior entre o provedor deste e a empresa interessada, visando viabilizar tecnicamente os protocolos de acesso e permissões de mudanças necessárias ao sistema de gerenciamento, o que demanda mais tempo de trabalho para operacionalização da atuação conjunta adequada.

O retorno imediatamente percebido pela utilização de APPs na realização de vistorias está na otimização dos serviços. Com o dispositivo coletor (smartphone ou tablet) os registros no campo são efetuados diretamente no sistema, o upload de informações coletadas pode ocorrer imediatamente diante de disponibilidade de sinal da internet ou quando este for acessível. Assim, no tempo transcorrido desde o acesso ao equipamento a realização do último item da lista de verificações pode ser efetuada a emissão do registro da vistoria, sendo este disponibilizando on-line.

As respostas aos itens das listas de verificações efetuadas no dispositivo coletor podem também dar maior confiabilidade à coleta de dados, uma vez que a obrigatoriedade imposta pelo APP de realização de registros fotográfico de componentes avaliados para permitir a continuidade da vistoria, o horário do dia em que um determinado item da lista de verificações foi concluído e a geolocalização onde a vistoria foi conduzida são registrados, representam o que foi visto, quando foi visto e de onde foi visto, evitando a prática do “copiou-colou”.

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Pontos de atenção

A lista de verificações é o guia para condução das vistorias, a sua qualidade é fundamental para o sucesso destes serviços e a elaboração requer atenção especial com autoria comprovadamente técnica, uma vez que se destina à realização de uma avaliação desta natureza.

Mesmo que um instrumento normativo pré-defina um escopo para essa referência técnica, este deve ser visto como mínimo, uma vez que aspectos estruturais e funcionais específicos do equipamento objeto da vistoria podem requerer observação no dia a dia da sua operação, referenciados ou não nos seus manuais técnicos, e integrar também a lista de pontos a verificar.

Outras fontes podem determinar inclusões e/ou adequações nas listas de verificações, como os padrões estabelecidos na empresa a partir de suas normas internas.

A capacitação dos profissionais executantes na aplicação da lista de verificações é outra ação necessária, abrangendo a compreensão sobre como efetuar as avaliações de integridade e funcionalidade básicas guiadas pelas referências em questão.

O atendimento dos pontos citados acima configura a conformidade técnica do processo de vistoria.

A necessidade de conformidade legal no processo de vistorias de equipamentos de movimentação de cargas offshore é observada na determinação pela responsabilidade técnica pela autoria e atualização da lista de verificação, assim como pela adequação da atribuição de responsabilidade pela sua execução e, posteriormente, aprovação.

Por fim

A segurança operacional é o foco fundamental deste artigo e o apelo para isto está relacionado na compreensão dos riscos resultantes dos desdobramentos da condução inadequada de um processo como o abordado.

Elencar os pontos de atenção como efetuado neste trabalho visa alertar que simplesmente aplicar um recurso tecnológico pelas vantagens, como as descritas anteriormente, pode resultar na continuidade de riscos operacionais.

Portanto, um processo de vistoria pré-operacional de equipamentos de movimentação de cargas offshore apenas poderá ser considerado em conformidade legal se estiver também em conformidade técnica, independente se está configurado sem ou com um APP.

O resultado esperado de um processo conforme é a manutenção da segurança operacional.

Bom e seguro trabalho.

(*) ronaldo cruzRonaldo Gonçalves Cruz, engenheiro mecânico e de segurança, com 35 anos de experiência em inspeção de equipamentos de movimentação de cargas offshore na Petrobras. Atualmente é diretor técnico da Cargopro Engenharia. Contatos: ronaldo.cruz@cargopro.com.br  
Foto em destaque no alto da página: Carlos Puppim realizando uma vistoria com APP CargoPRO.

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