Por: Camila Canto (*)
A certificação de acessórios destinados ao içamento de cargas constitui elemento fundamental para a confiabilidade operacional dos sistemas de rigging empregados nos segmentos industrial, portuário, offshore e de manutenção pesada. A integridade de componentes como manilhas, ganchos, lingas de corrente, lingas de cabos de aço, cintas têxteis e demais elementos associados depende do atendimento estrito a requisitos normativos e a procedimentos contínuos de avaliação de conformidade.
No contexto brasileiro, destacam-se como referências técnicas essenciais as normas ABNT NBR 13541 (Acessórios de Elevação), NBR ISO 7593 (Cintas Têxteis) e NBR ISO 12485 (Lingas de Corrente). Em operações regidas por padrões internacionais, é frequente a adoção das normas ASME B30 (partes 9, 10 e 26), EN 1677, EN 1492, além das diretrizes DNV-ST-N001 para atividades offshore. A certificação desses acessórios assegura que os itens foram fabricados com conformidade metalúrgica adequada e submetidos a ensaios destrutivos (como tração e ruptura) e não destrutivos (líquidos penetrantes, partículas magnéticas ou ultrassom, conforme aplicável), garantindo o atendimento ao WLL – Working Load Limit, observando o fator de segurança estabelecido em norma.
A rastreabilidade constitui requisito técnico indispensável. Cada acessório deve apresentar marcação permanente contendo, no mínimo: WLL, classe do material (ex.: G80, G100), identificação do fabricante, número de série, lote de fabricação, norma de referência e ano de produção. Para lingas montadas, as plaquetas devem contemplar ainda o tipo de arranjo (simples, dupla, sem fim etc.), os ângulos operacionais, as correspondentes reduções de capacidade e o fator de segurança (FS) aplicado. Sem rastreabilidade adequada, torna-se inviável atestar a conformidade do componente ou estabelecer seu histórico de inspeções e recertificações.
O processo de inspeção e recertificação demanda critérios técnicos rigorosos. Conforme o tipo de acessório, são realizadas verificações dimensionais, medição de alongamento permanente, avaliação de desgaste (como a redução máxima admissível de 10% no diâmetro de correntes), inspeção visual para identificação de corrosão e deformações, além da detecção de descontinuidades por ensaios NDT. Quando requerido, executa-se o teste de carga, geralmente aplicado entre 1,25 e 2,0 vezes o WLL, de acordo com a norma aplicável. A recertificação deve ser conduzida por entidade tecnicamente qualificada, preferencialmente reconhecida por organismos acreditadores.
É importante ressaltar que a certificação, por si só, não garante a execução segura das operações. As atividades de rigging exigem engenharia de aplicação adequadamente qualificada, contemplando cálculos de capacidade considerando ângulos entre os ramais de lingas, fatores de redução correspondentes em ângulos, posição do centro de gravidade, plano de rigging, tipo de conexão e possíveis cargas dinâmicas. A correta interpretação dos limites operacionais, critérios de descarte e restrições de torção é essencial para assegurar a integridade do sistema e a segurança das operações.
Em síntese, em ambientes industriais de elevada criticidade, a certificação de acessórios para içamento de cargas não deve ser entendida apenas como requisito documental, mas como processo técnico-sistemático, que integra conformidade normativa, ensaios, rastreabilidade, inspeções periódicas e engenharia especializada. A aplicação consistente desse ciclo reduz significativamente a probabilidade de falhas catastróficas, aumenta a previsibilidade operacional e sustenta elevados padrões de segurança e desempenho em atividades de movimentação de cargas.
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Camila Canto é engenheira, com mais de 15 anos de experiência no segmento de içamento de cargas, e Senior Sales Manager da Kito Crosby. Contatos: camila.canto@kitocrosby.com


