Por: Ronaldo Gonçalves Cruz (1)
A lança de um guindaste offshore, como a da Figura 1, é o componente integrante da estrutura deste equipamento que demanda atenção especial, sendo objeto permanente de observação em vistorias pré-jornada de trabalho, planos de inspeção e de manutenção. Sua integridade e funcionalidade afetam diretamente a disponibilidade desta grande máquina, o que pode comprometer até mesmo a produção de uma instalação.

Neste artigo o tema é um problema crítico de manutenção representado pelo desgaste no pino da base da lança, também conhecido como pino do pé da lança, que interliga este componente ao chassi de um guindaste, assim como no pino de articulação em guindastes knucle boom (lança articulada) como a da Figura 2, que une as duas seções de lança presentes.

A Figura 3 mostra a localização de um pino de pé de lança.

Os esforços de compressão são elevados nas 02 aplicações, mas condições particulares e inadequadas de carregamento podem comprometer os pinos em questão. De forma bem objetiva, vejamos a seguir alguns sinais que podem indicar problemas, o que pode motivar tal condição irregular e como proceder para avaliar a extensão de um dano.
Não atentar para a necessidade de uma melhor avaliação, mesmo que para isto intervenções de manutenção mais complexas sejam necessárias, significa correr riscos desnecessários que podem representar posteriormente em alto custo.
- A necessidade avaliação do nível de desgaste de um pino ou mesmo de um olhal pode ser sinalizada pelos aspectos a seguir.
- “Folga” na Lança: Movimento visível na articulação durante o levantamento ou rotação. Se a lança produzir um som como um estalo ou se deslocar antes da carga realmente se mover, o pino ou a bucha provavelmente estão gastos;
- Ruídos Irregulares: Rangidos ou batidas durante a operação. O som pode indicar contato metal-com-metal devido a uma falha na bucha;
- Limalhas de Metal ou “Suor” de Ferrugem: manchas alaranjadas ou pretas saindo da articulação. Isso geralmente é metal pulverizado misturado com graxa velha, um sinal de desgaste interno severo;
- Falha na Vedação: Vazamento de graxa ao redor das tampas dos pinos ou retentores, muitas vezes porque o pino se moveu o suficiente para deformar a vedação.
- O que pode causar tal desgaste:
- Falta de Lubrificação: Uma causa frequente. Se o canal de graxa estiver bloqueado ou se não for respeitada a periodicidade indicada de lubrificação, o pino aquecerá e sofrerá “gripagem” na bucha;
- Contaminação: Contaminação por partículas externas que agem como uma pasta abrasiva dentro da articulação.
- Sobrecarga: Levantamentos frequentes ou esforços aplicados acima da capacidade nominal podem deformar o pino ou ovalizar os olhais no chassi ou lança;
- Carregamento pendular transversal ao plano da lança, por exemplo, ao iniciar o carregamento fora do plano da lança ou na tentativa de eliminar o balanço da carga. Condição mais crítica para união entres lanças de um guindaste knucle boom.
- Sobre medição de Desgaste e Tolerâncias
Para verificar o estado do pino com mais precisão, se deve aliviar a carga aplicada a articulação usando macacos hidráulicos ou um apoio, por exemplo, o berço da lança.
- Folga Visual: Qualquer folga visível entre o pino e a bucha costuma ser motivo para uma inspeção mais detalhada, demandando desmontagem do conjunto;
- Tolerâncias Padrão: Sempre se deve consultar o manual específico do equipamento ou consultar seu fabricante. Diante da indisponibilidade de informações através destes, um profissional habilitado pode avaliar projetos de equipamentos semelhantes e estabelecer uma referência inicial, considerando as dimensões de partes íntegras como olhais e pinos;
- Teste com Relógio Comparador: O deslocamento entre a lança treliçada e olhais do chassi do guindaste ou entre as lanças principal e secundaria de um guindaste articulado podem ser medidas, por exemplo, pelo uso um relógio comparador
- Riscos da negligência de ignorar o possível desgaste de um pino ou bucha:
- Reparos por mandrilhamento: Se o pino atravessar a bucha, ele pode iniciar o desgaste da estrutura do olhal da lança. Reparar isso exige soldar o olhal e usiná-lo novamente no local, tarefa muito mais complexa do que uma substituição de pino ou bucha;
- Falha Catastrófica: Caso extremo, o pino pode cisalhar ou o olhal pode falhar, levando ao colapso da lança.
Os apontamentos acima não tem a pretensão de esgotar o assunto, mas são referências que devem ser consideradas e aprofundadas de acordo com os equipamentos objeto e/ou severidade operacional a que os mesmos são submetidos.
Bom e seguro trabalho!
(*)
Ronaldo Gonçalves Cruz, engenheiro mecânico e de segurança, com 35 anos de experiência em inspeção de equipamentos de movimentação de cargas offshore na Petrobras. Atualmente é diretor técnico da Cargopro Engenharia. Contatos: ronaldo.cruz@cargopro.com.br

Muito interessante. Como é importante uma inspeção bem detalhada neste equipamento de grande porte para evitar acidentes.
Estas informações são muito importantes para os profissionais detectaram as anomalias, e um fator muito importantes para vida útil do pino de pé de lança , e a lubrificação que deve ser realizada periodicamente, da forma adequada, e com a graxa indicada pelo fabricante do equipamento ou um profissional habilitado .