O segundo dia do Brazil Windpower 2026, realizado em 28 de outubro, no São Paulo Expo, reuniu representantes do setor elétrico, órgãos reguladores, especialistas e empresas para discutir os desafios da expansão das energias renováveis no Brasil. Entre os principais temas estiveram a modernização das redes de transmissão, a segurança regulatória, a eletrificação da economia e as condições necessárias para atrair novos investimentos.
Os debates destacaram que o avanço da geração eólica e de outras fontes renováveis depende não apenas da ampliação da capacidade instalada, mas também de investimentos na infraestrutura de escoamento da energia e de mecanismos econômicos capazes de orientar a expansão do setor.
Eletrificação e segurança energética
Em painel mediado por Natália Oliveira, da Global Renewables Alliance (GRA), especialistas discutiram a relação entre eletrificação, competitividade econômica e soberania energética. A presidente-executiva da Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica), Elbia Gannoum, ressaltou que a transição energética deixou de ser uma questão exclusivamente ambiental.
“Não se trata mais apenas de clima, mas também de segurança e soberania energética”, afirmou.
Para Vitor Caram, diretor de Expansão para a América Latina da ODATA, o Brasil precisa conciliar a maturidade técnica e regulatória de seu setor elétrico com a agilidade necessária para incorporar novas tecnologias e direcionar investimentos.
Transmissão como prioridade
A expansão e a modernização das redes de transmissão estiveram entre os principais pontos da programação. Os participantes destacaram que a disponibilidade de energia renovável não garante, por si só, o atendimento à demanda, especialmente diante das limitações de infraestrutura e da distância entre os centros de geração e consumo.
Glauco Freitas, executivo da Hitachi com atuação na América Latina, apontou a necessidade de assegurar que a energia produzida chegue aos locais onde é demandada. Segundo ele, transmissão e eletrificação são elementos fundamentais para viabilizar a transição energética.
Rodrigo Borges, Market Lead Brasil da Aurora Research, defendeu o aprimoramento dos sinais econômicos utilizados no planejamento do setor, de modo a reduzir custos e estimular a aproximação entre geração e consumo.
Na mesma linha, Thiago Ivanoski, diretor de Estudos Econômico-Energéticos e Ambientais da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), ressaltou a importância de tratar a transmissão como uma estratégia nacional, apoiada em investimentos contínuos e segurança regulatória.
Impactos acústicos e participação das comunidades
Outro tema abordado foi a avaliação dos impactos acústicos associados à instalação e operação de parques eólicos. O painel “Conectando conhecimentos técnicos de ruídos com o viés social”, mediado por Krisdany Cavalcante, do dB Laboratório de Acústica, reuniu especialistas, pesquisadores e representantes de órgãos ambientais.
Os participantes discutiram as limitações da adoção de distâncias mínimas fixas entre aerogeradores e áreas habitadas. Segundo os especialistas, a propagação sonora depende de fatores como topografia, regime de ventos e características técnicas dos equipamentos, exigindo avaliações específicas para cada empreendimento.
A discussão também destacou a importância da comunicação com as comunidades e do monitoramento ambiental contínuo. Representantes de órgãos ambientais da Paraíba e de Pernambuco defenderam maior participação da população nas decisões relacionadas à implantação dos projetos.
Planejamento e investimentos
Ao final dos debates, foram apontadas três prioridades para a expansão sustentável do setor elétrico brasileiro: modernização das redes de transmissão, aperfeiçoamento dos mecanismos de formação de preços da energia e maior coordenação entre órgãos reguladores, operadores e agentes do mercado.
Também foi ressaltada a necessidade de preparar a infraestrutura elétrica para eventos climáticos extremos e estabelecer condições de previsibilidade capazes de estimular investimentos privados de longo prazo.
O Brazil Windpower 2026 evidenciou, assim, que o aproveitamento do potencial eólico brasileiro está diretamente associado à capacidade do país de superar gargalos de infraestrutura, incorporar novas tecnologias e consolidar um ambiente regulatório favorável à expansão das fontes renováveis.
A programação oficial do segundo dia também contemplou debates sobre armazenamento de energia, inteligência artificial na operação e manutenção de parques eólicos e restrições à geração renovável (curtailment).
