A PRESSA É INIMIGA DA SEGURANÇA

A PRESSA É INIMIGA DA SEGURANÇA

Por: Leonardo Scalabrini (*)

No dia a dia das operações com guindastes, tempo e segurança caminham lado a lado, mas nem sempre na direção que se imagina. É comum associar produtividade à velocidade. Quanto mais rápido um ciclo de içamento é concluído, maior a eficiência da operação. Essa lógica, no entanto, esconde um dos riscos mais recorrentes (e mais evitáveis) do setor. Parte significativa dos acidentes envolvendo guindastes não decorre de falhas mecânicas ou de atividades mal projetadas, mas de decisões tomadas sob pressão de tempo, quando etapas essenciais são simplificadas, aceleradas ou negligenciadas em nome do cronograma.

Içar e movimentar cargas é, antes de tudo, um processo técnico aplicado em tempo real. Cada fase, como por exemplo, o posicionamento e patolamento do equipamento, a amarração da carga e o içamento e a movimentação da carga, envolve variáveis técnicas que precisam ser respeitadas na sequência e no ritmo corretos. Quando a pressa se instala, o risco deixa de ser hipotético e passa a fazer parte do cenário real de trabalho.

Por que respeitar o tempo de cada etapa do içamento é uma decisão técnica, e não apenas uma questão de disciplina?

O posicionamento do guindaste e o patolamento correto são a base de toda a operação. É nessa etapa que se garante a estabilidade do equipamento perante o solo, distribuindo o peso da máquina e da carga sobre uma superfície capaz de suportar os esforços envolvidos. Trata-se de um procedimento que exige avaliação cuidadosa: a capacidade de suporte do terreno, o uso do material adequado para o tipo de solo existente, o nivelamento correto das patolas e verificação da inclinação do chassi.

Quando esse processo é apressado, detalhes fundamentais deixam de ser observados. Um solo que parece firme à primeira vista pode não ter a capacidade de carga necessária para suportar a pressão concentrada transmitida pelas. Sem o tempo necessário para essa análise, o guindaste pode ser instalado sobre uma base insuficiente, e o resultado costuma se manifestar apenas no momento mais crítico: durante o içamento, quando o peso da carga é somado ao do equipamento.

É nesse instante que o afundamento do solo se torna uma ameaça concreta. Uma patola que cede, ainda que poucos centímetros, altera o nivelamento da máquina e desloca o centro de gravidade de todo o conjunto. Dependendo da magnitude dessa alteração, o resultado pode ser o tombamento do guindaste. Um patolamento bem executado não é uma etapa burocrática do procedimento, é a garantia física de que toda a operação seguinte terá uma base confiável.

Se o patolamento sustenta o guindaste, a amarração é o que sustenta a carga. Selecionar os acessórios corretos, calcular os ângulos de içamento, verificar o centro de gravidade da peça e distribuir os pontos de fixação são tarefas que exigem atenção técnica e, sobretudo, tempo para serem feitas corretamente.

Se essa etapa é conduzida com pressa, o risco de erro cresce de forma proporcional. Um ângulo de içamento mal calculado pode multiplicar a carga sobre um dos cabos muito além do previsto no projeto. Uma cinta escolhida sem considerar o peso real da peça, uma amarração assimétrica ou um ponto de fixação inadequado podem parecer, à primeira vista, pequenos descuidos, mas são justamente esse tipo de falha que costuma anteceder os acidentes mais graves com guindastes: a queda de carga.

A queda de uma carga içada não afeta apenas o material içado. Ela representa risco direto às pessoas na área de operação, aos equipamentos ao redor e à própria estrutura em construção ou manutenção. Um erro de amarração pode não apresentar nenhum indício visível até o momento exato em que a carga se solta. Por isso, a verificação cuidadosa e sem atalhos dessa etapa deve ser tratada como inegociável, independentemente da pressão de prazo que a operação esteja enfrentando.

Mesmo quando o patolamento e a amarração são realizados corretamente, a fase de movimentação da carga continua exigindo controle e ritmo adequado. Operar em velocidades mais altas do que o recomendado introduz um fator que muitas vezes é subestimado: a dinâmica do sistema.

Um guindaste e sua carga não se comportam como um conjunto rígido. A lança flexiona, os cabos possuem elasticidade e a carga suspensa tende a oscilar como um pêndulo. Movimentos bruscos ou executados em alta velocidade amplificam essas oscilações, gerando cargas dinâmicas: esforços que, em determinados instantes do movimento, superam significativamente o peso estático da peça sendo movimentada. Uma parada brusca após uma aceleração rápida, por exemplo, pode gerar picos de carga muito superiores ao valor nominal, mesmo que a peça pese exatamente o que foi calculado.

Esses picos de carga dinâmica podem levar o guindaste a operar próximo (ou além) de seus limites estruturais em frações de segundo, mesmo que a tabela de carga indique margem suficiente para o peso estático da carga. O resultado pode incluir sobrecarga do equipamento, fadiga acelerada de componentes estruturais e de içamento, falhas mecânicas ou perda de controle sobre a carga. Movimentos suaves, contínuos e realizados na velocidade adequada não são sinônimo de lentidão operacional, são a forma correta de manter os esforços dentro da faixa para a qual o equipamento foi projetado.

Um dos maiores equívocos na cultura de algumas operações é tratar cautela e velocidade como valores opostos, em que um só pode crescer às custas do outro. Na prática, operações conduzidas no ritmo tecnicamente correto tendem a ser mais previsíveis, com menos retrabalho, menos paradas não planejadas e, sobretudo, com um histórico de segurança muito mais consistente. O tempo investido em um patolamento bem-feito, em uma amarração conferida com atenção e em movimentos controlados da lança não é tempo perdido, é tempo que evita que a operação seja interrompida por um incidente, ou, no pior cenário, por um acidente.

Cabe às empresas (sejam elas as proprietárias dos guindastes ou contratantes destes), aos operadores, aos sinaleiros e a toda a equipe envolvida reforçar essa cultura. A pressão por cumprimento ou redução de prazo nunca deve ser justificativa para acelerar etapas críticas de segurança. Procedimentos operacionais padronizados, checklists de patolamento e amarração, e a autonomia do operador para pausar a operação sempre que perceber qualquer irregularidade são ferramentas fundamentais para que o ritmo correto prevaleça sobre a pressa.

Içamento e movimentação de cargas com guindastes são atividades que não perdoam atalhos. O afundamento do solo por patolamento apressado, a queda de carga por erros de amarração e a sobrecarga gerada por movimentos rápidos e cargas dinâmicas têm uma origem comum: a decisão de acelerar um processo que exige tempo, atenção e método. Respeitar o ritmo correto de cada etapa não é sinal de ineficiência, é responsabilidade técnica em uma atividade cujo erro, quando ocorre, raramente dá uma segunda chance.

Figura 1 (no alto da página em destaque): Quando a pressa resulta em acidente (Imagem ilustrativa gerada por IA)

(*) Foto LeonardoLeonardo Scalabrini, estuda e desenvolve projetos de tecnologia para o segmento de içamentos e guindastes, área na qual atua desde 2000. Contatos: leoscalabrini@gmail.com

 

 

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