O CAMINHO VERDE DO PLANO DE RIGGING

O CAMINHO VERDE DO PLANO DE RIGGING

Por: Leonardo Scalabrini (*)

A indústria do içamento sempre foi pautada por métricas rígidas de sucesso: o cumprimento de cronogramas, a precisão técnica e, acima de tudo, segurança operacional. Todavia, diante a urgência climática e a mudança do cenário global com a consolidação das práticas ESG (Ambiental, Social e Governança) nas cadeias de suprimentos, a eficiência energética e a descarbonização deixaram de ser diferenciais ecológicos para se tornarem imperativos de mercado.

Nesse novo contexto, o Plano de Rigging, ferramenta tradicionalmente associada, principalmente, à mitigação de riscos de acidentes surge como uma das maiores aliadas da sustentabilidade.

A correta e rigorosa elaboração do plano de içamento contribui diretamente para a redução da pegada de carbono (CO²) das operações. Longe de ser apenas um desenho técnico ou uma exigência burocrática, o plano de rigging bem elaborado é um vetor essencial de ecoeficiência.

Figura 1 (acima): Plano de Rigging Sustentável (Imagem gerada por IA)

Para compreender o impacto ambiental, é preciso olhar para a fonte primária de emissões do setor: os motores de combustão interna dos guindastes e equipamentos auxiliares, alimentados majoritariamente a diesel. Cada litro de combustível queimado lança na atmosfera cerca de 2,6 kg de CO².

As emissões de uma operação de movimentação de carga não se limitam ao momento em que a peça sai do chão. Elas englobam todo o ciclo logístico:

  • Mobilização e desmobilização: o transporte do guindaste e de seus contrapesos até o site.
  • Operação em vazio: motores ligados durante setups, testes e esperas.
  • O içamento propriamente dito: o pico de consumo de energia sob carga.

Um plano de rigging negligente ou superdimensionado gera um efeito cascata de desperdício de combustível.

Historicamente, na ausência de dados precisos ou por excesso de conservadorismo, ainda é comum a escolha de guindastes significativamente maiores do que o necessário. Embora a segurança seja inegociável, o superdimensionamento cobra um preço alto, tanto no lado financeiro, quanto em recursos ecológicos e ambientais.

Por exemplo, equipamentos de maiores capacidades nominais exigem o uso de caminhões e carretas para transportar contrapesos, lanças auxiliares (jibs e luffings) e demais acessórios, como moitão e materiais de patolamento. Um guindaste de 500 toneladas pode demandar de 8 a 12 carretas de apoio para sua mobilização. Reduzir esta quantidade pelo correto dimensionamento do guindaste é imprescindível.

A lógica é direta neste caso: mais peso transportado nas rodovias é igual a mais diesel queimado e maior pegada de carbono antes mesmo de o guindaste ser montado.

Além disso, um plano de içamento integrado estuda a logística do canteiro. Se a carga puder ser içada diretamente da carreta de transporte para a base definitiva, elimina-se a necessidade de double handling (armazenamento intermediário que exigiria um segundo ou mais içamentos). Menos movimentos significam menos horas de motor ligado.

Um dos maiores vilões da eficiência energética em canteiros de obras é o tempo em que o guindaste permanece ligado em marcha lenta esperando a liberação de frentes de trabalho, ajustes de rigging de última hora ou a chegada de acessórios.

Um plano de rigging detalhado alivia esse problema ao prever o passo a passo da operação. Com tudo planejado e ensaiado (muitas vezes por meio de animações 3D), a operação flui de forma contínua. O guindaste é ligado, executa o trabalho com precisão e é desligado. Evita-se a queima desnecessária de combustível decorrente da falta do planejamento.

Ainda, num pior cenário, pode ocorrer um desastre ambiental proveniente de um acidente com o guindaste. Além das perdas humanas irreparáveis e financeiras, um tombamento e quebra do guindaste ou a queda de uma carga geram um enorme impacto ecológico:

  1. Descarte de toneladas de materiais danificados (aço, concreto, componentes químicos).
  2. Emissões associadas à fabricação e transporte de novas peças para substituição.
  • Mobilização de guindastes de resgate de altíssimo porte.
  1. Risco de vazamento de fluidos hidráulicos e combustíveis no solo e corpos de água.

As mineradoras, indústrias petroquímicas e o setor de energia eólica, dentre outros já pontuam seus fornecedores com base em critérios de sustentabilidade. O prestador de serviço de guindastes que apresenta um plano de rigging otimizado, justificando a escolha do equipamento também sob a ótica da eficiência de carbono, passa a ganhar uma vantagem competitiva comercial esmagadora.

(*) Foto LeonardoLeonardo Scalabrini, estuda e desenvolve projetos de tecnologia para o segmento de içamentos e guindastes, área na qual atua desde 2000. Contatos: leoscalabrini@gmail.com

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

error: Conteúdo com direito autoral
×