Por Jeferson Leonardo Pereira (*)
A movimentação de cargas é uma atividade de execução precisa, onde cada detalhe técnico pode ser a diferença entre o sucesso e o fracasso. No entanto, um fator frequentemente subestimado em operações de içamento com cintas têxteis é a geometria da fixação, especificamente o ângulo interno dos olhais. A norma brasileira ABNT NBR 15637-1, que rege a fabricação de cintas planas, é clara: o ângulo interno no ponto de içamento não deve exceder 20°. Essa não é uma recomendação arbitrária, mas uma exigência baseada em princípios da física e da ciência dos materiais, que visa prevenir falhas catastróficas.
A Física por Trás do Risco
A desconsideração da regra dos 20° gera um aumento drástico da tensão nas costuras internas da cinta. Essa concentração de força, não distribuída uniformemente, fragiliza a estrutura do material e pode levar à ruptura, mesmo quando a carga suspensa está bem abaixo da Capacidade Máxima de Trabalho (CMT) da cinta. O fenômeno é similar ao da fadiga de materiais, onde o estresse se acumula em pontos de maior concentração de tensão. No caso das cintas, a fragilidade se manifesta nas costuras, que são os pontos mais sensíveis da sua construção.
Planejamento de Rigging como Solução
A identificação e mitigação desse risco devem ser etapas fundamentais no planejamento de rigging. A simples adoção de cintas com olhais mais longos pode ser uma solução eficiente, pois, quanto maior o olhal, mais fechado o ângulo de trabalho, e menor a concentração de tensão nas costuras. Em casos específicos, onde as condições da operação não permitem o uso de cintas padrão, é possível solicitar ao fabricante a produção de cintas com olhais personalizados, que se adequem perfeitamente aos pontos de içamento, garantindo que o conjunto cinta-gancho trabalhe sempre dentro das especificações de segurança.
A Inspeção em Detalhes
A inspeção visual é uma ferramenta valiosa para identificar danos causados pelo ângulo excessivo. Sinais como costuras desfiadas, alongamento desigual das alças ou qualquer deformidade na área do olhal são indicativos de que a cinta foi submetida a tensões inadequadas. A realização de inspeções periódicas, conforme a norma ABNT NBR 15637-1, é essencial para assegurar que o equipamento está em condições de uso. A documentação de cada içamento e a análise de eventuais incidentes podem fornecer dados valiosos para aprimorar os procedimentos de segurança.
A engenharia a favor da vida
A segurança na movimentação de cargas não é um acaso, mas o resultado de um planejamento meticuloso e da atenção aos detalhes. A correta aplicação da norma dos 20° para o ângulo interno dos olhais das cintas não é apenas uma formalidade, mas uma prática de engenharia que assegura a integridade dos equipamentos e, principalmente, a vida dos profissionais envolvidos.


