Por Ronaldo Gonçalves Cruz (*)
Nos anos 80 ele fez sucesso, incomodou fabricantes de grandes marcas, foi para alguns sonho de consumo e ainda: era de fabricação nacional. Para não fazer suspense, na Figura 1 temos um exemplar de um Gurgel, este com muita satisfação, de minha propriedade, há 33 anos. Trata-se de um modelo X-12 TR ano 1985, motorização 1600 refrigerado a ar, por fim, um quarentão enxuto.

A marca Gurgel conquistou adeptos com projetos simples, mas inovadores, lançando mão de fibra de vidro para conformação de diversos modelos e emprego de algumas partes de veículos de grandes montadoras, o que contribuía para reposição em manutenções. Vale a pena pesquisar um pouco sobre a história da Gurgel.
(Link sugerido: https://pt.wikipedia.org/wiki/Gurgel)
Mas porque em uma revista dedicada a temas relacionados a guindastes nos diferentes setores são abordados os veículos Gurgel? A reposta chegará um pouco mais a frente.
Na edição Nº 90 da Revista Crane Brasil fizemos um breve resumo sobre a evolução dos projetos de guindastes offshore. Entre os equipamentos apresentados estava o guindaste mecânico (Figura 2), configurado pela utilização de um acionador principal, sistema de engrenagens com embreagens junto a elementos acionados, sendo este a base para o desenvolvimento tecnológico até as máquinas atuais.

Mas a evolução veio como reposta aos inconvenientes relacionados às frequentes demandas de manutenção a que estas máquinas estavam sujeitas, como citado no artigo, vista pela ascensão de guindastes dotados de sistemas de acionamento hidráulico, como o modelo da Figura 3.

Uma outra face do avanço tecnológico se deu pela implementação de novos recursos de segurança importantes para o serviço no cenário offshore, como por exemplo, a monitoração de cargas, a consequente proteção contra sobrecarga comandada ou automática, emprego de diferentes sensores intertravados junto a controladores lógicos programáveis etc. Mas alguns destes dispositivos não eram aplicáveis à guindastes mecânicos, deixando estes equipamentos ainda vulneráveis a riscos operacionais.
O maior conhecimento sobre as condições de serviço no mar refletiram nas normativas relacionadas ao projeto dos guindastes, tanto em aspectos estruturais como funcionais, incorporando ainda os já referenciados recursos de segurança desenvolvidos.
A partir de então a demanda de novos projetos de guindastes mecânicos cessou e com o passar do tempo, a saída do mercado dos fabricantes destas máquinas complicou ainda mais a continuidade operacional dos equipamentos em serviço.
Agora vamos unir as histórias de um Gurgel com o guindaste mecânico. Os automóveis também evoluíram e aquele antigo sucesso perdeu espaço para a tecnologia dos novos, representada pelos freios ABS, controle de tração, airbags etc. As normativas também adotaram as inovações, determinando que a construção dos veículos atendam a rigorosos requisitos estruturais e funcionais relacionados a segurança de seus passageiros, avaliados inclusive em crash tests (Figura 4).

Mas por desviar destas normativas atuais o Gurgel não pode ser utilizado? Um guindaste mecânico também não pode? Claro que podem, mas para coloca-los em serviço atenção e cuidados são necessários, principalmente por parte de motoristas e operadores não habituados com seus recursos limitados e características funcionais (falamos sobre isto na edição 87).
Mas outro aspecto pesa para mantê-los em uso: manutenção. No caso do automóvel, antes se dizia que algumas peças eram encontradas até em padaria, em qualquer esquina havia uma oficina para atende-lo, mas agora, estas em sua maioria não atendem um primo do fusca, falando pelo seu acionamento, mas estão prontas para “plugar” um notebook em qualquer veículo atual para um diagnóstico.
No caso do guindaste, sobressalentes adequados para seu acionamento, como engrenagens, produzidos de acordo com as especificações originais estão restritos a poucos fornecedores confiáveis, a um custo elevado e por vezes com longo tempo de espera. Para assistência técnica no campo, apenas empresas que adquiriram os direitos de projeto dos fabricantes que se retiraram e outras que possuem em seus quadros ainda alguns dos poucos profissionais que atuaram por anos com os equipamentos.
A Gurgel não existe mais, seu legado está presente em alguns exemplares, assim como no aprendizado deixado.
Saudosismos à parte, bem fundamentados pela escola que foi o guindaste mecânico, manter um equipamento como este em serviço pode demandar não apenas elevados recursos financeiros, mas extrema responsabilidade operacional. Não há espaço para uma capacitação em operação específica insuficiente, o que também é aplicável para os interventores de manutenção, assim como emprego de partes sem rastreabilidade adequada ao projeto, fatores que colocam em risco a segurança de pessoas e instalações offshore.
Bom e seguro trabalho.


Excelente texto, sintetiza com clareza o assunto, mostra o processo de evolução tecnológica em dois grupos de equipamentos notáveis.