MUITO MAIS QUE UM “ESCRIBA”

MUITO MAIS QUE UM “ESCRIBA”

Por Tébis Oliveira

Um dos jornalistas pioneiros da imprensa especializada em transportes do Brasil, Marco Antônio Souto Maior, carioca de Macaé (RJ), torcedor do Flamengo e, em “priscas eras” como ele diria, do São Paulo, um dos times da cidade onde decidiu morar há mais de 40 anos, faleceu em 29 de setembro de 2013. Se Marco, Marquinho, Souto ou Soutinho, como era chamado, dependendo do interlocutor, lesse este texto, imediatamente canetaria a jornalista. “Sou jornaleiro, pô!”, tratava de corrigir incontinenti. Riscaria também a última palavra: “incontinência tem a sua avó”.

Proverbial (“Isso aqui é um obituário ou uma bíblia?”), dono de um rico vocabulário que, combinado ao raciocínio rápido, lhe permitia desarticular (“Virei ortopedista agora?”) qualquer palavra e recriá-la com um novo sentido através de um trocadilho – no geral, de uma ironia fina e uma sagacidade mordaz -, gostava mesmo de intitular-se (“Vou já te mostrar o intitulado”.) um “escriba”, sempre “à guisa” de “entreveros” com qualquer um que pretendesse orientar – em particular, comercialmente (… melhor não repetir o que ele achava dessa turma) – seu texto limpo, franco, exato e sempre surpreendente nas expressões tiradas do contexto usual para definir as novidades – ou não – da indústria automobílistica.

Marco iniciou sua carreira (“Tá cheirando de novo, cara?”) nos anos 70, na antiga Abril Tec, área de revistas técnicas do Grupo Abril. Foi editor da revista “Carreteiro”, dirigida a motoristas de caminhão e trabalhou com Gianfrancesco Guarnieri, como consultor dos primeiros episódios do seriado “Carga Pesada”, da TV Globo, que contava as aventuras de Pedro (Antônio Fagundes) e Bino (Stênio Garcia) em suas viagens como caminhoneiros. Em 1980, foi editor da revista Boléia, da extinta Editora Bloch, e de muitas outras publicações do setor, como a Transporte Moderno, Brasil Transportes, Frota & Cia, Autodata e, até setembro passado, da Transpodata.

Já nos anos 80, por exigência do diploma de jornalismo para exercer a profissão, formou-se na Faculdade Cásper Líbero. Uma questão pró-forma, segundo dizia, “vez” que já sabia tudo, por instinto, perspicácia e observação. Tudo o que sabia, ensinou. “Ensinei o quê?”. Deixou “por cá e acolá” muitos aprendizes, de antigas e novas gerações. Mas nenhum herdeiro de seu estilo inconfundível, de sua visão crítica, de seu enorme domínio da “quinta roda” e outros tantos “entreixos”, que sempre prometia “um dia mostrar onde ficavam”. “Por óbvio”, não nos caminhões, mas em alguma parte da anatomia de quem quer que o provocasse com “esse amontoado de bobagens”.

Marco deixou os filhos Daniel, Juliana e Yuri, assim como a mãe, com 89 anos. Foi um grande companheiro de redação, de viagens e de bares, boêmio que era, à imagem (“põe crase nesse a”) dos jornalistas de “boa cepa” e “bom copo”. Incansável, mesmo após os tratamentos de quimio e radioterapia que “por força” de combaterem um câncer de pulmão, acabaram com sua imunidade biólogica, esteve duas vezes no deserto do Atacama (Chile), em Trancoso, na Bahia, em dois eventos em São Paulo (SP) e em outro em Resende (RJ), todos a convite de montadoras e todos em setembro.

Seu próximo “périplo” seria pela Fenatran (Feira Nacional de Transportes), no final de outubro. Cofiando a barba e apertando os olhos vivos e inteligentes, tiraria suas próprias e únicas impressões que, com uma paixão de iniciante, converteria em uma bela matéria. Ele que me interrompeu a todo instante neste texto, agora cala. É uma pena!

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